Editorial – A novela de Centeno é um certificado de vida para Passos

em Opinião

Já todos percebemos que o ministro das Finanças não andou bem no assunto da Caixa Geral de Depósitos. Mas vai longa, demasiado longa, esta novela. Para a direita tem sido pasto muito nutritivo na oposição política ao governo. E dentro do PSD, uma espécie de certificado de vida para a adormecida liderança política de Passos Coelho.
Mas sendo certo que foi o próprio ministro Centeno a fazer a cama em que se deitou – como se percebe pelas atabalhoadas explicações públicas que deu esta semana – não deixa de haver, em tudo isto, alguma injustiça. Afinal, foi Mário Centeno quem conseguiu o mais importante para a CGD: a recapitalização do banco público, com o aval de Bruxelas – matéria que o anterior governo Pafista não só empurrou com a barriga, como insinuou ser impraticável.
Mas se no essencial da resolução da capitalização da CGD o ministro Centeno merece aplauso, já no processo subsequente espalhou-se ao comprido. Primeiro, com os vencimentos milionários atribuídos à direcção da CGD, que tanto desagradaram à esquerda; e depois, com o decreto legislativo à medida de António Domingos, posteriormente chumbado no parlamento – o primeiro estremecimento da “geringonça” –, e o subsequente folhetim da não declaração de rendimentos que a lei exige a todos os gestores públicos.
O caso acabou, como se sabe, após uma saturação mediática, com a saída de António Domingos pela porta dos fundos. Entrou depois Paulo Macedo, ex-ministro de Passos Coelho – o que também desagradou à esquerda. E com a nova direcção da CGD já em funções, eis que regressa o folhetim António Domingos, com o PSD e o CDS a acusarem o ministro de ter mentido ao parlamento, por afinal haver um suposto acordo com o banqueiro de não apresentação da declaração de rendimentos.
O ministro fala agora em “mútuo entendimento” – está implícito que dele próprio e de António Domingos –, para contornar a mentirazinha. E não fora esta trapalhada, que a direita tem sabido manter em lume brando (enquanto o invocado diabo não chega), e Mário Centeno até mereceria congratulações pelo registo alcançado no primeiro ano de governação socialista, com o apoio parlamentar dos partidos de esquerda.
Afinal, Centeno provou que não era necessária a austeridade de rapina, imposta pelo anterior governo de Passos & Portas a trabalhadores e pensionistas, para controlar o défice das contas públicas – agora nos 2,3%, bem abaixo dos limites impostos pela Comissão Europeia e pela primeira vez, nos últimos anos, sem necessidade de um orçamento rectificativo –, assim como a boa notícia de um crescimento económico a superar as previsões de Bruxelas e do próprio Governo, apesar da quebra do investimento público. Temos, pois, um ministro das Finanças tecnicamente capaz, mas politicamente naif.
A mentirazinha de Centeno, sendo um pecado mais comum em política do que do actual alarido sugere, é obviamente penalizadora. Mas como já alguém disse, também São Pedro mentiu três vezes antes do galo cantar. Isso quer dizer que Centeno tem ainda dois créditos a seu favor.

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