Beja Santos – “Açores, o segredo das ilhas, por João de Melo”

em Opinião

Por Mário Beja Santos

Esta narrativa de viagens de João de Melo teve a sua primeira edição em 2000. O autor explica-se: “De livro-objeto que foi, difícil de transportar na bagagem do viajante, ei-lo agora de volta ao texto e em edição corrente. Revisto e acrescentado”: Açores, por João de Melo, Publicações Dom Quixote, 2016. É propósito do autor que o visitante o manuseie, “sentado na paisagem, acima do mar mais belo do mundo, nos miradouros situados a meia encosta, no alto de um cone vulcânico ou de um outeiro, onde lhe seja possível ouvir a sonatina das ondas, comparar a realidade com a narrativa das viagens que aqui vão ser descritas, escutar o silêncio da terra e dos pássaros suspensos da vertical de qualquer lugar. O livro pode ser lido antes de se partir à descoberta do desconhecido; ou relido no regresso a casa, depois de visitar as ilhas, com o fim de recuperar emoções e aferir as imagens nele descritas pelas opiniões de cada um”.

Tudo começa no canal entre as Flores e o Corvo, voga-se numa deriva solta, com mar revolto. O narrador fala em vagas ariscas e corpulentas de um estreito indomável, em precipícios subaquáticos, naquele canal, num ápice se passa dos 50 aos 800 metros de fundura, o mesmo é dizer de um precipício normal para um abismo oceânico. Estamos agora no Corvo e o narrador vê uma unidade do tempo e lugar e comenta: “Esta podia muito bem ser a ilha do meu descanso, antes de o descanso me ser eterno”. E numa conversa alguém desabafa: “Esta é a única ilha dos Açores aonde ainda se regressa. A juventude prefere isto aqui, a qualquer outro lugar do mundo. Eu também troquei a América e os americanos por ela”. Segue-se agora para terra dos Florentinos, o narrador entra em êxtase: “Viver, na ilha das Flores, é uma aventura total entre a beleza de uma quase luxúria da paisagem e o modo precário dos dias. Nenhuma outra forma de perfeição deve exigir-se a esta força da natureza duplamente intemporal: primitiva no ser e fora do tempo em que ela hoje existe”. Passeia-se por miradouros e promontórios, deslumbra-se com as ribeiras e com as fajãs: “Passa-se da Fajãzinha para a Fajã Grande, e desta para a Ponta da Fajã, onde terminam a estrada e o mundo das Flores. Ao largo, no fim da costa, o ilhéu de Monchique. Tem a forma de uma vela latina este ponto mais ocidental da Europa”.

O viajante está agora na cidade da Horta, que é para se ver de cima, do Monte da Espalamaca, não há maior ecrã gigante, ali cabem uma graciosa Avenida Marginal, a marina, o Monte da Guia, as muralhas do Forte de S. Sebastião e, inevitavelmente o olhar é capturado pelo pico do Pico, pensa-se estar confrontado com um panorama genesíaco, mas o bulício da Horta chama-nos à realidade. O narrador, para nosso agrado, tece as frases com lira e verso: “O Faial é redondo, dócil e uno como a tartaruga gigante que a sua forma geográfica sugere ao olhar”. E dá-nos conta da imensidão de belezas até chegarmos aos Capelinhos, um território caído da lua, como ele diz, só que dessa paisagem lunar a terra ressuscita: “a diabelha, os catos, as canas e a tamargueira ganham raízes na cinza, contra a erosão; e ganham corpo, neste vento peneireiro e coador, contra um movimento de regresso da terra vulcânica ao seio do mar”. Estamos em território de afinidades, é pura loucura em falar-se aqui em solidão das ilhas pois temos o Faial, o Pico e S. Jorge em estreito namoro. Salta-se para o Pico, e o narrador tem uma declaração íntima para nos fazer: “A ideia que me importa reter deste subarquipélago de cinco ilhas (três delas na nossa presença e as outras em cortina, à mercê das névoas que se deslocam na fímbria do mar) é a de que existe um movimento, a invisível circulação de uma linfa geral e recíproca que alimenta a alma das ilhas. Algo a um tempo visível e que não se pode nunca deixar de dizer: cada ilha é uma casa, cada casa é uma ilha ao canto da rua”.

São Jorge é tratado como “o sáurio que dorme”. Percorre fajãs, e a dado passo comenta: “Num desvio para a costa, desce-se para a Fajã dos Cubres: a base plana com muito calhau rolado em volta, algumas casas alinhadas ao longo de um caminho de cascalho. É salobra, não doce, a água da fajã: vem do mar com a maré, coada pelo crives da penedia, e mistura-se com a Ribeira do Cirro. Logo à frente, gémea da dos Cubres, surge a Fajã da Caldeira do Santo Cristo, ligada ao mar pelo istmo do Caneiro, com uma gruta e uma laguna de água salgada onde se dão as amêijoas. À primeira vista, estas fajãs pareceriam pântanos, não fossem elas áreas dinâmicas, cheias de vida, sob a indiscritível imponência da costa. Logo depois, o inhamal cobre toda a Fajã Redonda com as suas verdes folhas redondas, vastas como abas de chapéu”.

Dói não poder continuar e andar por todas as ilhas. Dizer mesmo que não se pode visitar São Jorge sem ir a Santa Bárbara das Manadas, perceber onde está a plena graciosidade da Graciosa, subir e descer aquela que é a mais linda cidade do arquipélago, Angra do Heroísmo, exaltar a maior das ilhas, São Miguel, as suas lagoas, os tesouros artísticos, o esplendor do Vale das Furnas, e percorrer a Baía de São Lourenço, em Vila do Porto, Santa Maria. É preciso extensão para muitos mais comentários faustos, seguir à risca o guia roteirístico de João de Melo, e concordar plenamente com ele na sua hossana: “Não há terras mais belas, em todo o território português do que a dos Açores. Nem em nenhum outro país europeu. Os campos são ainda mais exuberantes do que o verde Minho ou a Irlanda; as lagoas mais lendárias e sobrenaturais do que as da Escócia ou os milagres finlandeses; a arquitetura da paisagem, que sobe da costa até ao interior em grandes e caprichos arcos montanhosos, nada fica a dever às alturas de montanha que movem e encantam o olhar da Europa”.

 

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