Zona de Perecíveis – Mulheres

em Opinião

Foi à minha Mãe que primeiramente ouvi a expressão “Mau, Maria”, que era (na sua boca) uma espécie de formal advertência, antes do grito ou do chinelo terminal. Disse-me o meu avô, seu pai, não sei se brincando, que a primeira pessoa a pronunciar essa frase fora José, pai terreno de Cristo, quando Maria lhe falou da gravidez milagrosa.
Ouvi o mesmo dito a meu Pai (“Mau, Maria”) durante uma conversa domingueira, ao almoço, à roda do tema “os direitos da Mulher”. Foi nessa ocasião também que o meu tio Eduardo se saiu com esta: “Os direitos da Mulher são uma vassoura na mão e a boca colada com fita isoladora.”
Creio ter sido em Camilo que li uma máxima – ou mínima – de sentido semelhante: “Deus nos livre de mula que faz him e de mulher que sabe latim”. Esta ideia de a cultura ser prejudicial, na verdade, estendeu-se por séculos a outros grupos, etnias e classes sociais, na avisada visão de quem mandava: o statu quo explorador era mais fácil de manter no sossego da ignorância dos explorados.
Cresci entre operários e pequenos burgueses. Não testemunhei graves atropelos à dignidade da Mulher, que no bairro da minha meninice era vista, em geral, como companheira de sofrimentos e sacrifícios, ou como cúmplice de revoltas e de sonhos. Mas lembro-me de, naquele tempo, durante uma missa, quando o padre falava do aparecimento de Eva, “a primeira mulher na Terra”, um senhor distinto, amigo de meu Pai, ter arrancado sorrisos à família com um simples murmúrio: “Coitado do Adão…” E o meu primo, estudante de mecânica, na esplanada do Café Lusa Nova, quando se falava da fama conversadora de algumas senhoras, perguntou-nos: “Sabem por que motivo é que foram mulheres os primeiros seres a ver Cristo ressuscitado?” Dissemos que não sabíamos, e ele explicou: “Foi para a notícia se espalhar mais depressa.”
A formatação das pessoas faz-se lentamente, subtilmente, insidiosamente. Apesar das leis, das campanhas mediáticas, do trabalho da Escola moderna – a noção de igualdade entre géneros esbarra ainda num muro milenar de preconceito, de desconfiança, de pouco secreto desprezo. E muito disto desagua em discriminação no acesso à profissão, no exercício do poder e na retribuição salarial, ou em violência machista nos territórios do namoro e do casamento. Digo-vos: aquela piadola do poeta Jorge de Aguiar, fabricada já no século XV (“Lembra-te que são mulheres”), perdeu toda a graça desde o nascimento da minha Filha.
A minha vida está cheia de mulheres admiráveis, extraordinárias. A minha Avó cuidava da casa, tratava dos filhos e, quando o dinheiro faltava, fazia à pressa uns chinelos de pano para vender e, com as moedas, comprar algum peixe ou alguma carne, assim garantindo a urgente refeição do agregado. Outras vezes, fazia gelados de café e, tostão a tostão, arranjava dinheiro para o leite que tanto faltava aos mais pequenos. E amava devotadamente o marido, apesar de o meu avô ser uma pessoa difícil de amar. Era talvez a pessoa mais bondosa do país da minha infância. Morreu com problemas de coração (desconfio eu que por ser demasiado grande para um peito tão pequenino).
A minha Mãe herdou muito desse carácter bondoso e generoso da progenitora. Só de vê-la, era-me fácil entender o significado – misterioso para muitos – da santidade. Por isso, aliás, me tem parecido lógico que, com a idade, o seu aspecto devenha cada vez menos físico, menos corpóreo, menos terreno – caminhando para a fatal transparência (ou invisibilidade) desse conceito mais vaporoso de todos, o Bem.
Para a minha avó Adília, e para a minha avó Emília, e para a minha Mãe, e para a minha Senhora, e para a minha Filha (e para a minha sogra, e a minha irmã, e as minhas tias, e as minhas cunhadas, e as minhas professoras, e as minhas colegas, e as mulheres de todos os tempos), deixo aqui um beijo em forma de crónica. É pouco, eu sei, mas é do coração – e, como fica escrito, é para sempre.

Joaquim Jorge Carvalho

 

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