O ruído do tempo, Dimitri Chostakovich e a URSS

em Opinião

Perguntaram ao escritor britânico Julian Barnes, a propósito do lançamento, em 2016, de “O ruído do tempo”, se achava que tinha um escrito um romance biográfico, ao que ele respondeu que todos os romances são biográficos, são o estudo da vida, basta pensar em Madame Bouvary ou Anna Karenina. A única diferença é que em alguns romances as pessoas são reais, e em outros não. Disse ainda que trabalhava de maneira instintiva e não lhe interessavam os géneros literários, considerava-se um escritor “transgénero”.

Julian Barnes é um dos nomes mais influentes da literatura inglesa contemporânea. “O ruído do tempo”, Quetzal, 2016, é um livro sobre a colisão entre a Arte e o Poder, são desveladas questões centrais como a liberdade de criar, o conceito leninista da arte estar ao serviço do povo, a quem cabe definir os padrões da estética musical, e, enfim, a condição do compositor ou artista num regime totalitário.

Temos, primeiro, o lançamento da notoriedade daquele que virá a ser consagrado como o nome maior da música clássica da URSS, Chostakovich, é-nos dado o seu ambiente familiar, a proteção dada pelo marechal Tukhachevski, que Estaline mandará fuzilar em 1936 como chefe de uma alegada conspiração, sentimos o terror dado pelas prisões arbitrárias, os interrogatórios desumanos, os critérios e pautas definidos pelos líderes soviéticos para as letras e artes. Eis que em 26 de Janeiro de 1936, Estaline acompanhado de Molotov, Mikoyan e Zhdanov, assiste à representação da ópera de Chostakovich, Lady Macbeth de Mtsensk, o compositor, até então uma coqueluche dos meios musicais é acusado de ser inimigo do povo e um servente da burguesia, afastado do ensino e as suas obras proscritas dos concertos. Terá sido o próprio Estaline a escrever o texto “Chinfrim em vez de música”, publicado no Pravda. À época, Chostakovich já era conhecido um pouco por toda a parte – de Nova Iorque a Cleveland, da Suécia à Argentina. Julian Barnes introduz-nos na esfera da nova mentalidade soviética, sentimos o peso da inquietação do compositor: “Interrogava-se porque é que o Poder passara a dar atenção à música, e a ele próprio. O Poder estivera sempre mais interessado na palavra do que na nota: os escritores, e não os compositores, tinham sido proclamados engenheiros de alma humana. Os escritores eram condenados na primeira página do Pravda, os compositores na terceira. Separados por duas páginas. O que não era pouco: podia ser a diferença entre a vida e a morte. Na Primavera de 1937, Chostakovich pensa que vai ser condenado, é interrogado, fazem-lhe mil e uma perguntas sobre o marechal Tukhachevski e as conversas políticas havidas. Chostakovich ainda não sabe que começou uma das purgas mais sangrentas decretadas por Estaline. Acaba por escapar. Nesse mesmo ano, em Novembro, na Sala da Filarmónica de Leningrado foi estreada a sua quinta sinfonia, cujo êxito foi instantâneo e universal. Os burocratas do partido deram um rótulo à sinfonia, “Uma tragédia otimista”.

Escapa às perseguições, passa pela vergonha moral de agir como um propagandista do pensamento soviético, em Nova Iorque dirá barbaridades de compositores proibidos na URSS, como Stravinsky. O poder soviético era adaptativo, antes do pacto Molotov-Ribbentrop, Wagner não era praticamente ouvido na URSS, passou prontamente a ser tratado como um grande compositor, encarregaram Eisenstein de dirigir a ópera A Valquíria, no Bolshoi, foi de pouca dura, em Junho de 1941 Hitler invadiu implacavelmente o território soviético e Wagner retornou à sua condição de vilfascista aproveitado pela escória. Se a fama de Chostakovich já era universal, a sua sétima sinfonia passa a ser um dos acontecimentos marcantes da vida cultural do mundo livre, a sinfonia Leningrado será escutada em todos os palcos de países democráticos a partir de 1942. É um artista reabilitado mas a ópera Lady Macbeth de Mtsensk continuará no Índex. Ele é um compositor que está debaixo de olho do implacável Zhdanov, a sua oitava sinfonia será alvo de crítica, acusada de pessimismo e individualismo doentio. No auge da fama, para se ver livre de perseguições, escreve louvores aberrantes a Estaline. É um homem de duas caras, mas tem consciência do que deve ser a criação artística: “A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. A arte já não pertence ao Povo e ao Partido, tal como já deixara de pertencer à aristocracia e ao mecenas”.

Krushchev sucede a Estaline, fala-se no Degelo, a música de Stravinsky voltou a ser tocada. As honrarias sobre Chostakovich não param, prémios, condecorações em vários continentes. Levam uma vida familiar atribulada, depois a morte da primeira mulher faz um novo casamento desastroso, entrou para o partido comunista, a sua ópera, agora reintitulada Katerina Izmailova foi aprovada. Volta a cometer vergonhas, assinou uma carta pública nojenta contra Soljenítsin, que tanto admirava. Aprendera mais coisas sobre a destruição da alma humana. E Julian Barnes observa: “Uma alma pode ser destruída de três maneiras: pelo que os outros nos fizeram; pelo que os outros nos obrigaram a fazer a nós próprios; e pelo que voluntariamente decidimos fazer a nós próprios”. Torna-se um homem estranho, com tiques e maneirismos. Morre precocemente: “O que esperava era que a morte libertasse a sua música: que a libertasse da vida dele. O tempo passaria e, embora os musicólogos continuassem com os debates, a obra começaria a valer por si própria. A História, tal como a biografia, desvanecer-se-ia: talvez um dia fascismo e comunismo fossem meras palavras nos manuais escolares”. O que ele aspirava veio a acontecer, no zénite da sua genialidade: a música passou a pertencer à música e o seu auditório deixou de ter fronteiras e vigilâncias ideológicas.

Um magnífico romance.

Deixar uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

Adeus, Camilo

O projeto da Camiliana que envolveu o Círculo de Leitores e José

Peregrino de Santiago

Jorge Salgueiro idealizou uma peregrinação a Santiago de Compostela. Com outro amigo,

Euforia

Portugal está em euforia; porém, os meus últimos dias têm sido bastante
0 0.00
Ir para Topo