Burkina Faso abandona ouro da Monsanto

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As terminologias deste título não são pretensiosas ou esotéricas. Importa porém descodificá-las, pois não são de imediato evidentes para a maioria: na língua “mooré” deste pequeno país da África Ocidental, dos mais pobres do mundo, Burquina Faso significa “povo incorruptível”. Dantes chamado Alto Volta – por se incluir na parte superior do rio Volta – termo que resistiu mesmo após se tornar independente da França. Só em 1984, com Thomas Sankara na governação, passou a denominar-se Burkina Faso. Quanto ao ouro branco, é o algodão, praticamente o principal recurso do país, primeiro produtor africano, que faz viver três milhões de pessoas, 1/5 da população. Uma agricultura vital (1/3 do PIB e 60% das exportações). Pois bem, o pequeno país ousou dizer não ao gigante norte-americano Monsanto, a multinacional do agro-business que domina 90% dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM) cultivados no mundo. A clássica resistência aos insecticidas levou os burquineses a procurar soluções e a optar pela variedade OGM de Monsanto portadora da bactéria bacillus BT que produz toxinas mortais. Uma má opção, dado que a sua introdução na variedade local interferiu com as características da variedade original. Aliás, já em 2001 a Revista “Nature” revelara a contaminação do milho “crioulo” mexicano pelos genes BT e RR. Resumindo, para o ouro branco, os rendimentos foram desastrosos, apesar das promessas de menores despesas: quebra de mais 40 % na qualidade, fibras de algodão menos longas e resistentes, o que ficou comprovado em 2014-15 no relatório dos universitários Brian Dowd-Uribe (USA) e Matthew A. Schnurr (Canadá). A boa reputação do algodão do Burkina Faso ficou assim comprometida, parecendo ter caído no esquecimento a condenação de Monsanto em 2007 (Lyon, França) por publicidade enganosa quanto ao carácter biodegradável do gene Round Up. O direito internacional, adormecido à sombra da bananeira, ainda não permite levar a tribunal uma empresa por crimes contra o ambiente (Cf. Greenpeace 2016). Existe o “Tribunal Monsanto”, uma mobilização social internacional para julgar a multinacional por crimes contra a humanidade e por ecocídio. Ele reuniu-se aliás em Outubro passado em La Haye, na Holanda, mas de alcance mais simbólico que outra coisa. E assim goraram as boas perspectivas de venda no mercado internacional decorrentes da manipulação genética. Monsanto justificou-se, nomeadamente, ao invocar condições meteorológicas e ambientais desfavoráveis, mas não convenceu. Daí que a Associação interprofissional do algodão burquinês tenha reclamado 73,6 milhões de euros de indemnizações. Seguiu-se a recusa de continuar com Monsanto. Grande vai a distância, efectivamente, do laboratório até ao terreno da realidade social, com casos de suicídio de camponeses, enquanto a justiça anda a ver passar os comboios! Outras ilações haverá ainda a tirar, ou seja, duas visões distintas do mundo: de um lado, Monsanto, a apostar no lucro máximo e em biotecnologias predadoras, aliás extensíveis ao sorgo, ao feijão, ao milho, etc. Do outro lado, a visão dos camponeses, indiferente a rendimentos fabulosos ou à entrada de divisas. A preocupação é subsistir, viver, não importa o ganho ser modesto, desde que seja ganho, sendo que o interesse dos camponeses está também no acesso aos adubos a crédito, em benefício do milho, prioritário. Diria enfim que o facto de o Burkina Faso recusar a Monsanto pode contagiar a vizinhança. É o efeito dominó. O Mali, outra grande civilização africana fronteiriça – lamento, em tempos, ter estado à porta, mas sem lá ter entrado – é também um produtor de algodão, que poderá estar na calha para a recusa da pegada da Monsanto em África.

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