Dança: Queda em palco no Virgínia

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O coreógrafo Victor Hugo Pontes é um velho conhecido do público de Torres Novas. Já aqui trouxe vários espetáculos e esteve como coreógrafo de um espetáculo comunitário no âmbito do Festival Materiais Diversos. Esta sexta e sábado, está de volta com duas propostas: uma para o público escolar, chamado “Cair”, exibido na sexta (14h30) e sábado (11h), e outro para o público em geral, com o título “Fall”, exibido no sábado, às 21h30.

Como coloca o conceito de “queda” em palco, através da dança?

O ponto de partida para esta criação foi o conceito de “queda”, que articulada com outras tem múltiplos significados. Significa “queda física”, como um passo de dança contemporânea. Também significa Outono em inglês, que significa um período de regeneração da natureza. Há ainda a ideia de queda do Homem em tentação e ainda o conceito de “cair-se de amor”. Existem ainda duas ideias distintas: as quedas físicas, que são observáveis a olho nu, e as quedas emocionais, quando nos sentimos desamparados. Em palco vão estar sete bailarinos que, durante 1h10, vão passando por estas várias quedas, explorando estas relações diferentes entre os tipos de queda, nunca de forma literal e deixando muito espaço para que cada espetador possa construir a sua própria narrativa e interpretação.

É um conceito mais poético e abstrato do que uma narrativa?

Associo muito mais o meu trabalho à poesia do que ao romance, na medida em que não existe uma narrativa linear. O que faço é dar alguns indícios ao público para que vá construindo a sua narrativa. É como na música, há coisas que são para sentir e não são para perceber.

Qual é a interpelação que faz ao público?

Proponho momentos de reflexão sobre o que é estar em queda, sobre esta ideia de cairmos e nos levantarmos. Acontece muito com as crianças, de caírem e de rapidamente se levantarem. Em adultos, temos mais as quedas emocionais e, normalmente, é mais difícil de nos levantarmos delas. Contudo existe sempre essa esperança de voltarmos à tona. Encaro a queda quase como um sentido de não respiração e de voltarmos a respirar de novo. Há sempre esta relação com a pessoa que está ao nosso lado e que tanto nos dá um empurrão como nos ajuda a levantar.

Em que contexto nasceu este espetáculo?

O espetáculo só foi possível com a coprodução do Teatro Vila Flor de Guimarães, Teatro Circo de Braga, Teatro Maria Matos e Teatro Rivoli, com o apoio da Direção-Geral das Artes. A residência artística decorreu no Espaço do Tempo, no Alentejo, e a própria cenografia foi inspirada na paisagem deste local.

 

A dança em Portugal está bem e recomenda-se?

A dança está muito bem em Portugal, o que fazemos e criamos está ao nível do melhor do mundo. Temos excelentes criadores e bailarinos. A dança também não se propaga tão facilmente quanto a música, por exemplo, na medida em que podemos ouvir música em todo o lado. Há uma evolução porque as pessoas começam a ter cada vez mais uma preocupação com o lado físico, participam em aulas de zumba, vão a ginásios, dançam em discotecas. Isso é bom, acho que o mais importante é as pessoas dançarem. Ainda não há o hábito das pessoas irem à dança, há um certo preconceito de que é algo intelectual, que não vão perceber. Mas o que sinto com o meu trabalho é que quebro um pouco esse preconceito e as pessoas dizem-se que entenderam e sentem-se contentes por perceberem que não se sentiram “burras” -passo o termo – a assistir aos espetáculos. A nível de financiamentos para a dança, as coisas estão péssimas, os orçamentos de Estado continuam a dar menos de 1% para a cultura.

Como tem sido recebido em Torres Novas?

Sinto que em Torres Novas existe público que segue a minha carreira. Também é normal porque já aqui realizei um espetáculo comunitário, no âmbito do Festival Materiais Diversos, e criei laços com pessoas da população de Torres Novas e Alcanena.

Como foi criar o outro espetáculo mais direcionado às crianças?

Foi um convite feito por um dos espaços onde o espetáculo foi criado de adaptar o “Fall” para crianças. Aqui exploramos mais a ideia de queda física, porque as crianças não tem ainda essa ideia de queda emocional. Os dois bailarinos, que interpretam o espetáculo, procuram recriar um local onde não se cai, seja fisicamente seja emocionalmente. O espetáculo passa-se no mesmo cenário do espetáculo para adultos, tem um caracter mais lúdico e menos abstrato, ainda que não seja uma narrativa linear.

 

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