Histórias secretas do atentado a Salazar

em Opinião

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Quase ao mesmo tempo apareceram nos escaparates duas obras alusivas ao atentado a Salazar, ocorrido em 4 de Julho de 1937. João Madeira em “1937, O Atentado a Salazar, A Frente Popular em Portugal”, A Esfera dos Livros, 2013, chamou a atenção para a formação da Frente Popular em Portugal e os envolvimentos, mesmo a contragosto, de anarquistas e comunistas. Escreve Madeira: “O PCP era, ainda a meio dos anos 30, apesar de todas as tentativas de bolchevização, um partido que carregava um visco resultante de tradições políticas diferentes que aí convergiram, mantendo em boa medida os lastros identitários de origem, quer fossem de raiz anarco-sindicalista, sempre propensa à ação direta, quer viessem da tradição republicana radical e maçónica, também propensos ao golpe de mão e ao reviralhismo golpista”. E o modo como se deu a divulgação do “grupo terrorista do Alto Pina”, uma farsa montada com vítimas inocentes que serviram para dar satisfação à opinião pública de que os golpistas tinham confessado o seu hediondo crime, aparece escrito numa atmosfera digna de um thriller.

“Histórias Secretas do Atentado a Salazar”, por Valdemar Cruz, Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2013, é uma reedição do trabalho de um jornalista profissional altamente cotado. Valdemar Cruz é o primeiro a investigar as peças tenebrosas deste processo que só após o 25 de Abril é que foi tornado público. Centrou-se na investigação policial, mostra com dedo de mestre as rivalidades entre polícias e investigadores, desvela interrogatórios bárbaros, confissões forjadas, acareações que deixaram o juiz boquiaberto. Mais, o jornalista explora o clima melodramático que se montou à volta do atentado, Salazar é apresentado como o homem providencial que Deus não quis que agonizasse num ato terrorista montado pelo Komintern, era inevitável que andasse por ali o braço longo de Moscovo… Como escreve o historiador Manuel Loff “O atentado de Julho de 1937 contra Salazar não foi sequer o mais espetacular das manifestações da tensão armada dos anos da Guerra Civil de Espanha. A revolta da Armada de Setembro de 1936, motim de marinheiros planeado pela organização comunista (a Organização Revolucionária da Armada) dentro da marinha de guerra, eclode algumas semanas após o início da guerra em Espanha. Depois de ter conseguido controlar a situação – não sem antes ordenar o afundamento de dois navios de guerra controlados pelos rebeldes –, Salazar ordenou a deportação para o arquipélago de Cabo Verde, de um grupo inicial de 152 presos políticos que foram forçados a construir a sua própria prisão, a qual se viria a tornar o mais sinistro e emblemático dos campos de concentração portugueses: o Tarrafal, na Ilha de Santiago”.

Valdemar Cruz é vigoroso na descrição da atmosfera emocional e da exaltação patriótica decorrentes do atentado. A popularidade de Salazar está em ascensão, ele está a encetar uma assombrosa concentração de poderes, é presidente do Conselho, ministro das Finanças, depois ministro da Guerra e logo a seguir dos Negócios Estrangeiros; a Guerra Civil de Espanha é a sua maior preocupação no campo da política externa, esta dramatização do atentado deu muito jeito.

A polícia política, a PVDE, recebe instruções para descobrir os bombistas, pô-los a falar. Idealiza-se que são os comunistas os autores, Lisboa é virada do avesso, desde o Poço do Bispo até Alcântara, fiscalizam-se fronteiras e embarcações, os legionários estão vigilantes. E de repente aparecem notícias sobre os alegados autores, fala-se em nomes, António Pires da Silva, pedreiro, Jacinto Estevão de Carvalho, ajudante de condutor de automóvel, José Horta, pedreiro, e Manuel Francisco Pinhal, antigo anarquista, é este o grupo terrorista do Alto Pina. Surgem as confissões através de uma habilidosa divulgação, a vaga de prisões arrasta novas confissões. Parece que todos se sentem felizes com o êxito da polícia. Todos, menos um, o capitão Baleizão do Passo, até há pouco ligado à PVDE, e com alguns rancores acumulados às chefias. Tudo aquilo lhe cheira a artifício, narrações inusitadas, acusações inverosímeis. Contacta o subsecretário de Estado das Finanças, Costa Leite Lumbrales, o Governo é confrontado com uma versão oficial agradável mas estrambótica e com as declarações de um oficial do Exército que arrasa as investigações das equipas do capitão Agostinho Lourenço.

A leitura deste trabalho torna-se quase compulsiva, é convincente a reconstrução dos bastidores da investigação policial, parece mesmo que estamos presentes nos interrogatórios e assistimos à tortura de inocentes, sente-se eletricidade no ar com a rivalidade entre a polícia política e a PSP, vemos desgraçados espancados com crueza selvagem e depois comprados com sandes de presunto. Porque entretanto, já Salazar felicitara a PVDE pelo seu triunfo descobre-se o grupo que efetivamente montou o atentado. Há interrogatórios que são um puro delírio, nas acareações ambos os grupos se olham atónitos, ninguém conhece ninguém. O juiz Alves Monteiro vê desenrolar-se todo este processo kafkiano, os inocentes, que tudo tinham confessado, explicam ao magistrado como foram forçados a satisfazer as necessidades da PVDE. E vão saindo as verdades, os espancamentos desumanos e até a morte em pleno interrogatório. Se necessário fosse um libelo acusatório para a polícia política de Salazar, este chegava, é estarrecedor o grau de maldade e despotismo. São peças dignas das melhores reportagens portuguesas. Porque quando o juiz quer repor a verdade, os carrascos da PVDE recordam-lhe que ele não sairá impune dessa decisão. E quem são estes algozes, por que atuavam assim? Observa Valdemar Cruz: “Tratava-se, em geral, de gente sem qualquer preparação política, alheia aos movimentos oposicionistas da época, e, como tal, desconhecidos da generalidade dos opositores do regime. A voragem de encontrar culpados a todo o custo e com a maior das urgências, a necessidade de mostrar serviço ao Chefe, mas também o estatuto de impunidade de que a PVDE gozava, tal como qualquer polícia política de um regime ditatorial, criaram as condições para que tudo pudesse ter acontecido com aparente normalidade”.

A solução encontrada foi deixar sair discretamente os inocentes. Valdemar Cruz descreve os pormenores do atentado e as pesadas penas que foram aplicadas aos verdadeiros bombistas. E este importante trabalho termina com o estudo da situação da falta de liberdade de imprensa e como o controlo da informação permitiu que no antro da ditadura se tivesse forjado o grupo terrorista do Bairro Alto. Só para ler este capítulo vale a pena ter entre mãos esta preciosa reportagem que percorre os corredores labirínticos e do aparelho repressivo de Salazar.

 

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