Editorial – Da corrupção à crise

em Opinião

 

Paulo Morais veio esta semana a Santarém falar de corrupção – tema do seu mais recente livro – e de como ela está na origem desta crise, que além de económica é moral. O que surpreende no discurso deste cidadão exemplar é a clareza da sua análise ao fenómeno da corrupção e, sobretudo, a sua coragem pessoal ao divulgar os nomes dos autores e dos beneficiários de cada um dos casos de corrupção relatados. Num tempo em que o medo domina e tolhe a vida de tantos portugueses – o medo de perder o emprego, o medo de perder a casa, ou simplesmente o medo do futuro – as palavras de Paulo Morais são um alimento tonificante que o leitor pode ler nesta edição ou ouvir de viva voz no vídeo da conferência que disponibilizamos no site do nosso jornal (www.o ribatejo.pt). A coragem deste homem solitário na sua luta de denúncia pública contra a podridão e o conúbio entre a vida política e a dos negócios merece, de todos nós, uma atitude mais activa de censura pública.

O escandaloso caso do BPN conheceu esta semana novos e surpreendentes desenvolvimentos. Um ano depois de o Estado ter vendido por tuta e meia os despojos deste banco fundado por ex-governantes cavaquistas, ficámos a saber que, afinal, as Finanças públicas continuam a suportar novos custos com este pesadelo. Aos milhares de milhões que já estão às costas dos contribuintes, podem ainda somar-se agora mais 150 milhões que o BIC de Mira Amaral soube acautelar no contrato de compra e venda com o Estado – por sinal negociado pela actual ministra das Finanças, que despachou o banco por 40 milhões depois de o Estado lhe ter injectado 600 milhões frescos. Mas o que mais surpreende neste caso de polícia que é o BPN, para além da dimensão do roubo, pelos vistos ainda sem fim à vista para os cofres públicos, é os culpados desta colossal burla continuarem ainda por aí à solta e a gozar dos rendimentos fraudulentos que todos nós estamos a pagar.

Entretanto, a vida política portuguesa continua dominada pela imprevisibilidade. Até o Presidente da República Cavaco Silva, talvez o mais previsível dos nossos políticos (e a propósito, cabe-me aqui apresentar desculpas pelas atrevidas previsões que arrisquei e falhei), conseguiu surpreender-nos com a incompreensível decisão de devolver o problema da governabilidade do país aos três partidos do arco da governação, quando resolveu não aceitar a proposta de remodelação que Paços Coelho lhe levou. Sucede que três semanas depois da crise despoletada pela mortífera carta com que o ministro Vítor Gaspar se despediu das finanças e do governo, e de mais umas diatribes mal sucedidas de Paulo Portas, continuamos em suspenso, agora à espera do fumo branco das negociações entre os dois partidos da coligação governamental e o maior partido da oposição. Entretanto e não menos surpreendentemente, o Presidente da República decide partir para as Ilhas Selvagens, a uns retemperadores mil quilómetros desta bagunçada em que nos deixou. Ao mesmo tempo, o mesmo PS que está sentado à mesa das negociações com os partidos do governo anuncia que irá votar a favor da moção de censura ao governo que os Verdes vão apresentar esta quinta-feira no parlamento. É difícil, neste ambiente quase esquizóide, acreditar que possa sair alguma coisa de positivo desta aventura política em que Cavaco nos meteu para evitar as eleições que poderiam, essas sim, ajudar a clarificar a situação política do país. Porque com este governo moribundo, a situação só pode continuar a apodrecer.

Joaquim Duarte

1 Comment

  1. A crise existe em Portugal mas corrupcao nao !!! Se estou equivocado o sr Joaquim Duarte no proximo ELEITORAL do semanario que e’ director elabore a lista das pessoas que estao atras das grades presas por serem CORRUPTAS !!!!!!! Transparency Internacional Ranking ……. 1. Finlandia e Dinamarca ………….. 35. Portugal ………………… X – FILE : CORRUPCAO / DETENCOES. Mais um dossier em que a bota nao liga com a perdigota ? ……. Romeiro, Romeiro quem es tu ? NINGUEM ! ………….. RUDI B. – FI

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