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Rosário Breve – O cavalo pitagórico

 

 

 

Daniel Abrunheiro

Um cavalo de Santana Lopes caiu a um poço numa quinta de Santana Lopes também. Foi foto-legenda em jornal. O desenlace da ocorrência é feliz: os bombeiros resgataram-no vivo da aflição com o voluntário, voluntarioso, estóico, abnegado e glorioso esforço do costume. Tenho porém um problema. Este: não era nem sobre cavalos nem sobre o, por piada, ex-secretário de Estado da Cultura, e ex-primeiro-ministro, e ex-presidente do Sporting, e ex-presidente dos municípios figueirense e lisbonense, e ex-tudo o mais (ou menos) alguma coisa que eu queria cronicar.

O que me apetecia perorar sobre – era isto: a santíssima trindade matemático-geométrico-topológica que consiste na naturalmente tríplice nomenclatura Pitágoras-Newton-Gauss. Mas percebo eu alguma coisa do assunto? Nadinha-nicles. É por isso, todavia, que cronico: como nada sei de jeito de seja o que for, faço como o Nuno Rogeiro. Ou como o Professor Marcelo, esse carismático e canastrão olho-arregalado tão leitor de capas de livros.

Modos que tenho já duas trindades em boxístico empate técnico: ao canto esquerdo, de calção branco, Pitágoras-Newton-Gauss; ao direito, de calção (ou camisa) castanho(a), Santana-Rogeiro-Marcelo. Sobra-me o cavalo.

(Na rua, entretanto, assisto a esta dúplice epifania: no passeio de lá, de calção branco, duas educadoras, uma à frente, outro ao cabo oposto, pastoreiam mimosamente, bucolica’infantilmente, um rebanhinho de humanos pintainh’ovelhas de bibe-creche; no de cá, uma guia turística apascenta um rancho de periclitantes idosos em demanda da memória (v)ida través as maravilhas patrimoniais locais. Já volto ao assunto.)

O cavalo de Santana Lopes está vivo. Não se afogou e “anda por aí”. Bem. O teorema pitagórico, porém, só pode ser aplicado à superfície lisa, posto que a natural esfericidade planetária implica que a soma interna dos ângulos do triângulo-rectângulo nega a linear soma de 180 graus que tanta rotineira alegria nos dava. Gauss curvou a coisa, enquanto Newton via cair a maçã.

O problema é que me continua sobejando o cavalo de Santana. Safo-me pelo lado do ribateja’nobel Saramago, que postulou esta brilhante evidência: “Tudo no mundo está dando respostas. O que demora, é o tempo das perguntas.”

Assim me safo: em plano, as linhas paralelas nunca se encontram, à imagem de Portugal consigo mesmo; mas em redondo, as paralelas, tal como os relógios parados acertam sempre na hora duas vezes ao dia, acabam sempre cruzando-se vezes duas também. Maravilha: acabo de perceber as crianças num passeio e os idosos no outro. Encontrar-se-ão-emo-nos. Percebi, finalmente percebi.

O que não percebo – é o cavalo de Santana.

E os outros dois também não.

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