Gerir a Floresta: Criar Riqueza
Opiniões online Quarta-feira, Setembro 1st, 2010Por: Florinda Matos
Assolados pela calamidade dos fogos, temos visto uma das maiores riquezas nacionais – a floresta – ser dizimada, pondo em causa o equilíbrio ecológico de muitas áreas e a sustentabilidade de muitas populações que, assim, se vêem empurradas para a desertificação. Se não, o que poderemos dizer quando uma classe de pequenos agricultores, com um papel importantíssimo na manutenção do meio rural, de repente, se depara sem a horta que constituía um importante complemento dos seus parcos rendimentos ou, mesmo, sem a pastagem para os seus micro-rebanhos!
A maioria dos países que têm riquezas, por exemplo petróleo ou minerais, protegem essas riquezas, nós que temos entre as maiores riquezas a floresta, o que é que fazemos? Deixamos que seja consumida pelo fogo!
Entretanto, discute-se o que deveria ter sido feito e não foi, procuram-se razões e culpados, perde-se o pouco tempo que ainda temos para salvar o que resta do nosso delapidado património florestal.
Na minha opinião, em primeiro lugar, devemos aprender com a história, pois desde o tempo da monarquia até aos anos 60, havia uma preocupação com a florestação e com a manutenção da floresta que se mantinha em equilíbrio com as populações locais. A partir dessa altura, o fogo, juntamente com a alteração dos sistemas agrícolas, encarregou-se da desflorestação e da desertificação e só, esporadicamente, temos visto algumas tentativas de se colocar ordem na desorganização que daí resultou.
Em segundo lugar, o problema da floresta portuguesa não se pode dissociar do problema geral da agricultura e do desenvolvimento rural. A floresta deve estar integrada no espaço rural, onde os espaços agrícolas devem constituir uma barreira entre as populações e a floresta, evitando assim que, em caso de fogo, sejam postas em perigo casas e pessoas. Paralelamente, a floresta tem que ser vista, pelos seus proprietários, como um bem gerador de rendimentos e portanto que interessa preservar. Por outro lado, a fixação de populações, no espaço rural, contrariando a desertificação, tem que ser um elemento fundamental da política nacional de desenvolvimento rural.
Em terceiro lugar, a política nacional de ordenamento do território tem que ter em consideração as situações acima mencionadas, garantindo que, em cada região, sejam privilegiadas e mais valorizadas, as espécies florestais endémicas dessa região e, particularmente, aquelas que mais resistência oferecem ao fogo, como sejam os sobreiros. Devemos sempre lembrar- nos que os nossos proprietários e os nossos reis quando mandavam plantar sobreiros ou pinheiros mansos sabiam o que era mais adaptado a cada região!
O ordenamento do território requer, não apenas o ordenamento florestal e agrícola mas, também, a prevenção dos fogos e o ordenamento da construção, impedindo, não só atentados aos ecossistemas mas também evitando a dispersão de habitações em zonas florestais, o que, em caso de incêndio, dificulta a tarefa dos bombeiros, pois ninguém tem dúvidas que é mais fácil proteger um aglomerado de vinte casas do que proteger as mesmas vinte casas, dispersas no meio de um manto florestal!
Esta política de ordenamento do território deverá ser escudada por leis rigorosas e fortemente punitivas, que limitem os abusos no ordenamento do território e penalizem as infracções nesta área.
Por último, mas não menos importante, surge a questão da responsabilidade social. Para minimizarmos o efeito dos fogos na floresta portuguesa, temos que incutir, na nossa população, independentemente da propriedade dos espaços florestais, a ideia de que a floresta é um bem de todos, tão precioso como a água ou outros bens que se começam agora a proteger. Quando a floresta arde não é apenas o valor material que arde, é o ambiente que fica mais poluído, mais pobre em oxigénio, são os habitats que ficam destruídos, é todo um ciclo de vida e um ciclo social que é alterado e que pode ter consequências irreversíveis.
Claro que vamos continuar a ter incendiários e negligentes que poderão por em causa todo este património de que tenho vindo a falar, mas se tivermos em consideração estas questões, certamente o problema poderá ser minimizado e, talvez, daqui a uns anos, os nossos filhos voltem a olhar para a floresta como uma das maiores riquezas nacionais.
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