“Uma Atracção Irresistível” da Irmã Raquel Silva
Opiniões online Quinta-feira, Setembro 9th, 2010P’la Irmã Raquel Silva
O livro “Uma Atracção Irresistível” foi escrito a pedido de várias pessoas, depois de terem visto um programa da RTP, “Em Reportagem”, da autoria do jornalista Alberto Serra, que foi emitido em 07 de Novembro de 2007, sobre o caso da minha vocação. A título de nota, o programa pode ser visto na Internet, no site da RTP e no da Youtube: http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?pagURL=arquivo&tvprog=20716&idpod=9916&formato=flv&pag=arquivo&pagina=7&data_inicio=&data_fim=&prog=20716&quantos=10&escolha
Ao escrever o livro, para além de partilhar o meu percurso com o leitor, tive em conta o que conheço da sociedade actual e as reacções das pessoas ao programa, as perguntas que me fizeram, os aspectos que mais apreciaram, e o que as fez sentir reconfortadas. O livro tem 3 capítulos, que abordam, respectivamente, a minha conversão e vocação, o sentido da vida religiosa contemplativa, e a questão do sofrimento e a fé. O tema deste último capítulo foi motivado pelo facto de sensivelmente metade das pessoas que nos telefonaram depois da emissão do programa, serem pessoas que estavam a viver situações de grande sofrimento e se terem sentido reconfortadas com o programa. O livro tem também um anexo sobre a Visitação, para quem desejar conhecê-la, e um conjunto de fotografias das irmãs no seu quotidiano. É um livro breve, de 96 páginas, que vai já na 2ª edição. Tem uma linguagem simples e directa, porque desejo que o leitor se sinta como se estivesse em diálogo comigo. O livro e meu percurso Doze anos sem me confessar, sete sem ir à Missa, a paixão pela ciência e o ateísmo aos quinze anos de idade são os ingredientes desta história em que Deus assumiu o protagonismo, intervindo no momento oportuno e dando origem à grande viragem que ainda agora se realiza e me impele para mais além. É desta intervenção de Deus que falo no meu livro “Uma Atracção Irresistível” (Edições Tenacitas). Tudo começou aos doze anos – apenas dois anos depois da primeira Comunhão –, quando decidi não mais me confessar, achando que bastava pedir perdão directamente a Deus. O meu fascínio pela ciência, em particular pela astronomia, desenvolveu em mim uma visão materialista da realidade, fazendo-me desembocar num ateísmo convicto aos quinze anos. Obrigada pelos pais a ir à Missa, aos dezassete anos senti claramente a presença de Deus no momento da Comunhão. Compreendi que Deus afinal existe, mas abandonei a Missa, que considerava uma simples cerimónia para recordar a Deus. No entanto, aquele chamamento aos dezassete anos motivou o meu regresso à Missa aos vinte e quatro, acompanhado de grande alegria. E foi então que Deus me atraiu a consagrar-me inteiramente a Ele: no momento de me deitar, quando me preparava para adormecer, brotou dentro de mim um súbito e espontâneo desejo de uma entrega total a Deus, desejo jamais sentido ou imaginado e com o qual agora, inexplicavelmente, me identificava por completo. Não resisti, entreguei-me à sua vontade e procurei-a no silêncio da oração. E foi o silêncio tornando-se cada vez mais o habitat natural da minha alma. Faltava saber onde Deus queria que me consagrasse a Ele. Procurei conhecer congregações religiosas, mas com o carisma de nenhuma me identificava. Fazendo dois retiros na portaria do Mosteiro da Visitação de Vila das Aves – onde hoje me encontro – com o fim de dedicar os dias à leitura de livros espirituais e à oração no silêncio, Deus fez-me sentir que era ali o meu lugar: Deus chamava-me a ser monja visitandina, a beber da maravilhosa espiritualidade de São Francisco de Sales. E foi assim que, depois de uma juventude em tudo normal – nada faria prever que um dia viria a ser freira –, depois de ter estudado, tirado o curso e começado a trabalhar, de ter namorado quase cinco anos e sonhado com casar e formar família e com uma carreira profissional, de tudo abdiquei por uma razão maior. Entrei no mosteiro há dez anos, e toda a minha realização está no amar a Deus e entregar-me a Ele na oração e na vida fraterna em clausura, sabendo pela fé que, apesar de todas as minhas limitações e fraquezas de ser humano, a minha vida e o meu ser são postos, nas mãos de Deus, a render em favor de todos, o que é para mim fonte da mais genuína alegria. A alegria. É a alegria e a esperança o que mais desejo transmitir neste pequeno livro. A vida é cada vez mais difícil e exigente. Na sociedade abundam sofrimentos e inseguranças. Há sofrimentos que nos batem à porta e nem sabemos como lidar com eles, de tal modo nos ultrapassam. Não podemos mudar os acontecimentos, mas a nossa atitude pode determinar a forma como os vivemos e ultrapassamos. É possível ser feliz, por meio da fé, mesmo nos maiores sofrimentos, como bem vi na minha mãe, vitimada pelo cancro. Falo dela no terceiro dos três breves capítulos do livro, pensando em quem mais sofre. A fé transforma-nos e dá-nos tranquilidade e segurança onde, de outro modo, existiria a revolta e o desespero. Mas o livro foi escrito para crentes e não-crentes, como digo logo na introdução, e pode ser do interesse de ambos. É uma partilha aberta a todos.
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