O comboio real
Opiniões online Sábado, Agosto 28th, 2010Por: Armando Fernandes
O comboio real vai para o Entroncamento, titula na primeira página este jornal na edição da semana passada. Não fiquei surpreendido, muito menos espantado, nem melancólico apesar da minha condição de sócio fundador da Associação de Defesa do Património de Santarém. Mudam-se as estruturas, mudam-se as vontades. Vou explicar a razão. Na campanha para as legislativas de 1985, visitei o complexo ferroviário do Entroncamento. Fiquei impressionado e muito preocupado perante as displicentes afirmações ouvidas quando abordei a evidência de formidáveis exemplos de património estarem em risco de desaparecimento ou ruína. Só os ferroviários mais antigos, especialmente o Sr. Serrão, demonstraram grande amor e interesse na salvação da alma dos caminhos-de-ferro, representada por centenas e centenas de peças de todos os géneros, idades e funções. Eleito deputado obtive luz verde do notável parlamentar que foi Magalhães Mota, para conceber um projecto de lei visando a criação do Museu Ferroviário do Entroncamento. No dia 3 de Dezembro de 1986, entreguei o referido projecto de lei (312/IV) provocando surpresa noutras bancadas, o falecido Raul Junqueiro assim o afirmou, alguns esgares de despeito no seio do grupo parlamentar a que pertencia, enormes sorrisos de satisfação nas faces de Mota, Bártolo Paiva Campos e Alexandre Manuel. Ao nível da opinião pública uma das primeiras reacções negativas à minha proposta foi publicada neste jornal sendo seu autor Jorge Custódio. Na altura o museólogo escalabitano, também fundador da Associação de Defesa do Património, defendia a todo o transe a manutenção e revitalização do núcleo museológico ferroviário existente em Santarém, não se esquecia, e bem, de salientar a importância do comboio real, desdenhando do Museu. Ignorei essa e outras opiniões semelhantes, continuei a defender o Museu e na quinta legislatura (escrevi a peça) para quem defendeu este importante equipamento em acto de votação final. O tempo fluiu, vencidas dificuldades e constrangimentos o Museu fez-se, apesar de não ter sido convidado para a sua inauguração fiquei radiante quando ocorreu. No mais, não fico impressionado ante a passividade das autoridades escalabitanas. A indústria da cultura não é estudada por aquelas bandas, mas existe. Recomendo a leitura de “Sobre a Indústria da Cultura” de T.W. Adorno.
PS. Caso Jorge Custódio esteja interessado posso oferecer ao Museu cópia do original do projecto-lei, com excepção do rascunho.
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