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Non Ducor, Duco*

Pedro Barreiro

17/08/2010

A velocidade é muita e o tempo é outro. A percepção do que passa é fugaz e tudo se fragmenta sem grande nexo num caminho onde o horizonte é quase sempre a meta. Os prédios vomitam água imprópria para beber. No mesmo plano, um helicóptero e um homem que faz de burro a puxar uma carroça. O lugar do Homem é também outro, ou o mesmo em toda a parte, não sei, o de andar e depois correr, o de fazer parte e depois fugir, o de se revoltar e depois se resignar, o de querer ganhar e depois perder.

O jogo continua e as peças no tabuleiro sentem que precisam de um jogador que as faça andar de casa em casa. Não há casas, só lugares onde se vai estando. O que faz o tempo andar é o próprio tempo, indomável, imparável, e a tentativa de se sentir para além esbarra com um quadro de betão.

Exorta-se à acção. É impossível parar a meio, o atropelo é inevitável, a masturbação é crónica, a sede é muita e a água não presta. Cachaça não é pinga. Mas pinga é mais barata e pelo menos sempre há alguém num dos poucos lugares onde o tempo parece parar que olha nos olhos quando fala e que tem um cunho de pessoal no que diz. Cícero o canalizador. Tenho um quarto, um tecto, uma porta e uma chave. Se tens chave então tens casa.

Podes não generalizar, se calhar é o melhor a fazer para se evitarem injustiças nas considerações. Que todas as injustiças fossem essas.

Podes preferir não o fazer. Podes armar-te em Bartleby ** dos tempos pós-modernos ou alter modernos ou hipermodernos ou o que quer que seja. Podes sempre gritar e esperar que te oiçam. Podes parar e olhar para o céu e esperar que a estrela te indique o caminho. Foda-se até o céu é diferente, assim não dá, então compras uma bússola, compras um mapa no trânsito mas enganas-te e o mapa é do corpo humano e não do mundo, tudo se vira para dentro, tudo se vê do avesso. Enervas-te e procuras um alvo. A visão está turva e não consegues focar a mira para o alvo que ainda nem discerniste. Respiras fundo e tosses escape, parece que afinal há algo maior que tu, algo que não consegues nomear, que teimas em tentar encontrar enquanto corres de um lado ao outro do tabuleiro, com a mania que quem comanda o jogo és tu.

E é assim? Ou é sempre assim? Queres então finalmente agir por conta própria e ver no que é que dá. Esta merda é viciante e começas a gostar da sensação e do cheiro, da sede e do desnorte, do correr e do entrar, do estar e depois sair e correr outra vez. O Homem é sempre o Homem e nenhum homem é igual ao outro. Não dá para conheceres todos nem tudo, por mais que queiras, não dá para veres tudo nem para opinares sobre tudo nem para agires sobre tudo nem para intervires em tudo nem para todos te ouvirem. Azar. Não é sempre assim? Um duelo entre sorte e azar e tu a espada que está no meio sem conseguir fazer grande coisa em relação a isso? Não, dizes tu cheio de ti. Non ducor, duco. A decisão é minha o comando é meu quem manda sou eu. Em mim ou em ti? O meu ou o teu? Alguém manda? Quem é que manda? Quais são as ordens e as coordenadas? Onde estão as instruções? Tantas perguntas para quê?

Quer-se a decisão para se passar ao acto.

A potência de um acto não acaba com a sua concretização?

Seremos todos então inertes em potência? Ou impotentes concretizados?

O Cícero está-se bem nas tintas para isso.

(*) Divisa do Município de São Paulo. Significa “Não sou conduzido, conduzo.”

(**) Personagem do conto Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, publicado em 1856.

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Publicado por on Ago 27 2010. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

2 Comments for “Non Ducor, Duco*”

  1. Ó Pedro dedica-te à representação ou tenta a política (aproveita as aulas do teu pai). Para a escrita, decididamente não tens muito jeito.

  2. Eu diria mais Pedro: A cidade mais limpa é a que menos se suja.

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