Grande é a China
Opiniões online Sexta-feira, Agosto 27th, 2010Por: Joaquim Duarte, editorial jornal O Ribatejo, dia 27 de Agosto de 2010
As grandezas do crescimento económico que amiudadamente nos relatam sobre a China, quase sempre em absurdas comparações com o Ocidente, fazem lembrar um pouco aquela anedota que se contava quando o Hollywood descobriu o grande ecrã do cinema. Mais ou menos assim: Antes era o Gary Cooper no meio do ecrã sozinho, cercado por 500 índios de cada lado; mais tarde veio o cinemascópio e pudemos então ver o Gary Cooper, também sozinho, mas já com 1.500 índios de cada lado.
As notícias sobre a China – promessa sempre anunciada para breve como próxima primeira economia mundial – são sempre em tamanho gigante, como enorme é o país, quase do tamanho de um continente, e esmagador o número da população que o habita. Na China, o crescimento económico mede-se por dois dígitos ao ano – um pouquinho menos agora com a crise a Ocidente –, as catástrofes quando acontecem somam invariavelmente milhares de mortos, e até os engarrafamentos de trânsito ultrapassam o inimaginável. Veio há dias noticiado nos jornais que as autoridades chinesas estavam a tentar lidar com um engarrafamento na maior auto-estrada do país que já durava há dez dias e tinha uma fila, com milhares de camiões, a atingir já os 100 quilómetros de comprimento. O difícil escoamento de trânsito era provocado, imagine-se, por causa de obras de manutenção numa zona da referida auto-estrada.
Para uma economia que nos é “vendida” com tão ridente futuro – em artigos de conceituados economistas da nossa praça e livros com bombásticos títulos, como “Quando a China mandar no mundo” –, é de assinalar o rigor de planeamento e organização numa obra de engenharia rodoviária tão banal e capaz de despoletar tamanho caos.
Ao exercitar tanta imaginação intelectual, convém lembrar que a ascensão da China assenta numa ditadura política e num modelo económico híbrido – uma opaca combinação de modos de produção com políticas industriais agressivas, tanto na sua inserção internacional como nos estragos provocados ao ambiente, impensáveis em qualquer país europeu, e um quase total controlo estatal sobre o sistema bancário que lhe permitiu escapar às turbulências financeiras do modelo liberal.
Já agora, aos que desdenham do viver neste pequeníssimo país que somos – uma mania muito nacional – a revista Newsweek diz-nos que Portugal figura em 27º lugar no ‘ranking’ dos melhores países do mundo para viver, um estudo que contou com a colaboração de personalidades como o Prémio Nobel Joseph Stiglitz. É certo que ficámos muito atrás da Finlândia, o primeiro da lista, mas ainda assim à frente da “esperançosa” China que ocupa o 59º lugar. País muito pouco apetecido para prometido timoneiro do mundo.
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