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Especial José Saramago – Vida, obra e opiniões

No discurso de aceitação do Prémio Nobel, em 1998, José Saramago prestou homenagem a dois nomes: Jerónimo Meirinho e Josefa Caixinha, “analfabetos um e outro.” Eram os seus avós mater­nos, duas figuras essenciais na lenda pes­soal do escritor. Quem adivinharia que o neto de dois camponeses da aldeia de Azi­nhaga, no Ribatejo, atingiria o cume das letras mundiais, que o seu nome (o fun­cionário do registo acrescentou a José de Sousa, Saramago, a alcunha da família) seria conhecido em todo o mundo? A infância foi vivida em Lisboa, para onde os pais se mudaram quando ainda não tinha dois anos. Mas os Verões da ado­lescência passados na aldeia, os passeios nas margens do rio e “nas ardentes exten­sões dos olivais”, deixaram?lhe uma mar­ca perpétua na imaginação, superiormen­te recriada em “As Pequenas Memórias”. Tirou o curso de Serralharia Mecânica ao mesmo tempo que fazia a formação literária nas bibliotecas públicas de Lis­boa. Em 1944 casou?se com Ilda Reis, mãe da sua única filha, Violante. O casa­mento durou 26 anos. Seguiu?se uma rela­ção com Isabel da Nóbrega, a quem dedi­cou os livros que escreveu até 1984. Curio­samente, e numa estranha revisão da sua vida pessoal, “apagou” as dedicatórias das reedições. A paixão tardia pela jor­nalista espanhola Pilar del Rio deu?lhe um novo alento. Partiu para um exílio dourado na ilha de Lanzarote, após a polé­mica de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. A ostensiva figura pública sobre­pôs?se sempre ao Saramago mais íntimo e pessoal. Mas nas dedicatórias revela muito, não fosse a do seu último roman­ce uma das mais belas declarações de amor da literatura: “A Pilar, como se dis­sesse água.”

Três milhões de livros vendidos

José Saramago vendeu quase três milhões de livros das 41 obras publicadas em Portugal pela Caminho, onde trabalha o editor que o acompanhou ao longo de quase toda a carreira: Zeferino Coelho.
O livro mais vendido foi “Memorial do Convento”: quase 700 mil exemplares em 47 edições, desde 1982. O último livro, “Caim”, de 2009, vendeu até agora 150 mil exemplares. A obra do escritor foi publicada em 53 países e traduzida para 42 idiomas. Após a notícia da sua morte, registou-se uma corrida às suas obras nas livrarias.

Textos: Bruno Vieira Amaral – Crítico literário do diário “i”

O essencial da obra de Saramago: o que deve saber se não leu os livros


Terra do Pecado (1947)

O título deveria ser “A Viúva”, mas o editor alterou?o para “Terra do Pecado”. “História dos Pecados de uma Viúva” teria contentado os dois. Quando o neo-realismo dominava, Saramago ainda escrevia sobre as criadas chantagistas, à boa maneira de Eça de Queiroz.

Manual de Pintura e Caligrafia (1977)

Saramago demorou trinta anos a regressar ao romance. Há uma personagem H. e outra M., o que se pode considerar uma crítica premonitória ao capitalismo e à alienação das grandes cadeias de lojas de roupa através da venda de blusas escandalosamente baratas.

Levantado do Chão (1980)

Um comunista escrever sobre o Alentejo é tão óbvio com um “tio” escrever sobre os gelados Santini. Saramago encontrou a sua voz neste romance sobre trabalhadores rurais mas poderia ter escrito sobre operários da Lisnave.

Memorial do Convento (1982)

Não diga a ninguém que nunca leu. Há um Baltazar, uma Blimunda e um Bartolomeu, um rei megalómano com um interesse pouco cristão por freiras e um fascínio por edifícios faraónicos e um tanto inúteis.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

Quatro anos antes do centenário do nascimento de Fernando Pessoa, Saramago “matou” o heterónimo Ricardo Reis, aquele rapaz que preferia ficar de mãos dadas com Lídia em vez de trocar carícias.
A Jangada de Pedra (1986)
E se a Península Ibérica se separasse do resto do continente europeu? Se a Grécia estivesse incluída na viagem diríamos que o romance era uma resposta às preces de Angela Merkel.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)

Um Jesus Cristo humano, demasiado humano, um diabo simpático e um Deus insuportável. Com este romance, Saramago despertou a fúria dos católicos e ofereceu ao país um personagem inesquecível: Sousa Lara.

Ensaio sobre a Cegueira (1995)

A cegueira como metáfora e como factor que desencadeia o mais primitivo e brutal que a Humanidade carrega. A única personagem que resiste à epidemia é a mulher de um médico: a burguesia é sempre privilegiada.

Todos os Nomes (1997)

Mergulho kafkiano na burocracia. A ideia do romance surgiu enquanto José Saramago pesquisava dados sobre a morte do seu irmão, vítima de pneumonia aos quatro anos. Se o mundo de Borges era uma biblioteca, o deste romance é uma imensa conservatória do Registo Civil.

Caim (2009)

Porque Saramago nunca foi de consensos, a sua despedida da cena literária aconteceu com esta provocação. O Deus Todo?Poderoso levou aqui uma sova, mas não se incomodou. A última palavra é sempre d’Ele e da morte sem intermitências.

Depoimentos

“Esse homem de óculos e de rosto sério construiu um mundo que, no futuro que hoje começa, continuará a estender o seu eco. José Saramago ousou enredar-se nos problemas do seu tempo, foi completamente contemporâneo de todos nós, mas criou uma obra que toca as questões essenciais da natureza humana e essas continuarão com a mesma actualidade de hoje: a cegueira e a lucidez, a morte e tudo o resto, a vida incandescente a cada página.”

O escritor José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago, em 2001, pelo livro “Nenhum Olhar”. Ganhou também um amigo que acompanhou até ao fim da vida.

“A consagração de Saramago deve-se à literatura e à sua ‘intervenção cívica’ – mas só a literatura, que está ligada à eternidade, o irá transcrever mais tarde nas palavras da terra, no gigantesco poema do mundo. (…) Creio, acreditei sempre – e escrevi-o – que Saramago era um homem extremamente religioso. Só um homem religioso pode rondar a blasfémia e interrogar directamente a figura de um Deus “humanamente injusto”. O resto é polémica, passagem, indignações. O que passará à eternidade é isso: talento, trabalho, dedicação.”

Em 1991, Saramago mostrou a Francisco José Viegas as 444 páginas da primeira impressão de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. O escritor e jornalista tornar-se-ia um dos maiores especialistas na obra do Nobel.

“Sopesadas bem as palavras, penso que Saramago era o seu próprio partido, e que o PCP a sua solidariedade institucional. A tristeza essencial que deixava transparecer acentuou-se na proporção em que o mundo regredia nas opções sociais, e que Portugal acelerava uma decadência degenerescente, reflectida em todos os sectores da sociedade. Não parava, porém; mesmo quando a doença o atingiu rudemente. E não parava porque continuava a acreditar no poder da palavra, no império das ideias e na grandeza da dignidade humana.”

Baptista-Bastos acompanhou-o nos desacordos com o PCP, na atenção minuciosa às coisas da vida, nas conversas sobre o marxismo e o partido. De Saramago ficou a memória de um “desobediente” que nunca foi “dissidente”.

Inauguração da Estátua na Azinhaga

FOTOGALERIA DE JOSÉ SARAMAGO NO RIBATEJO

OUTRAS OPINIÕES

DESAPARECEU UM ESCRITOR UNIVERSAL

Luísa Mesquita

Autora da 1ª tese académica sobre a obra de Saramago

A literatura como promessa de felicidade fica mais pobre. A literatura como inquietação e reflexão permanentes fica suspensa, tal qual Jangada de Pedra, lançada no Atlântico na procura do futuro.
Mas a história da humanidade, dos homens e das mulheres sem nome, ficará para sempre inscrita no Memorial de Blimunda, na História do Cerco de Lisboa de Raimundo, no amor de Jesus e Madalena, nos cegos que, vendo, não vêem ou na Lucidez que o presente precisa.
Com José Saramago a Língua Portuguesa jorrou de potencialidades incomensuráveis, de rebeldia, de fascínio e emoção.

A obra de Saramago expulsa as certezas, questiona o país e o mundo na procura de quem somos e porque estamos aqui. A obra de Saramago rejeita as verdades únicas, desafia as fronteiras das convenções sociais e artísticas. Por tudo isto, quando soou a hora da despedida, emergiram nas mãos dos leitores e leitoras anónimas, os livros, as histórias, as personagens que ficam mais sós, porque… … …”Um dia vou deixar de estar aqui”, Saramago.

José Miguel Noras

Presidente da Associação “Mais Saramago”

Saramago deixa uma escola em que o valor da riqueza humana é todo ele “cadinhado” no espírito da ética, sob o signo de um ideário que visa concorrer para que a humanidade seja mais lúcida, menos desigual e mais solidária. Saramago deixa uma obra gigantesca e que, inevitavelmente, vai marcar dois grandes períodos na literatura portuguesa: Antes e Depois de José Saramago.


Moita Flores

Escritor, presidente da Câmara de Santarém

A sua obra, apesar de controversa, é uma referência do exercício mais pleno de liberdade. Destaco o carácter insubordinado e insurrecto de José Saramago, embora tenha discordado de algumas atitudes de maior intolerância. Saramago morreu depois de uma vida cheia, pode dizer “confesso que vivi” como o livro de Pablo Neruda. Só os escrivães recolhem unanimismo. Fica-me na memória o “Memorial do Convento”, um livro que só nos acontece uma vez na vida.

Vítor Guia

Presidente da Junta de Azinhaga

A memória de José Saramago está bem viva na Azinhaga com a estátua que conseguimos construir na freguesia e com o pólo da Fundação José Saramago, um espaço que o escritor quis deixar para dar cultura aos jovens da terra. Para mim o melhor livro de Saramago é o “Levantado do Chão” pois demonstra bem o humanismo e a sensibilidade que tinha enquanto homem e enquanto escritor.

Armando Fernandes

JOSÉ SARAMAGO

Na sequência do 25 de Abril de 1974, em Santarém, viviam-se momentos de grande efervescência política. Sucediam-se as reuniões, as discussões e as sessões de esclarecimento. Cartazes anunciavam uma dessas sessões no Pavilhão da Feira com a presença de Mário Castrim, José Saramago e Alberto Ferreira. Sala composta, intervenções calmas, de um momento para o outro a descompostura veio ao de cima provocada pelos MRPP a gesticularem, a ameaçarem e a falarem nas massas e em nome delas. Mário Castrim cáustico retorquiu: as massas alimentícias dos papás. Aumentou o barulho pois a resposta acertou em cheio, o advogado e antigo prisioneiro em Peniche, Humberto Lopes, encerrou a sessão. Assim conheci José Saramago. Em 1993, durante as comemorações do 25 de Abril realizou-se um jantar no qual a figura saliente era José Saramago, já famoso como escritor e sorridente pelo quase total louvor ao Memorial do Convento, publicado no ano anterior. Estava acompanhado pela companheira, elegante e bonita, a escritora Isabel da Nóbrega, que enquanto durou a refeição lastimou e criticou duramente o júri que premiou a Balada da Praia dos Cães, em detrimento do Memorial. Ele abanava a cabeça em sinal de concordância. O Dr. Viegas ouviu-a pacientemente, os discursos receberam palmas bem batidas. Retive a impressão que Saramago achava que o reconhecimento e consequentemente os elogios e louvores chegavam tarde. No ano de 1987, no Rio de Janeiro, num jantar cerimonioso a exigir smoking no dizer do convite, Saramago aparece não trajando de extraordinário, sim de ordinário fato e gravata. Pergunta a José Carlos Vasconcelos se pode sentar-se junto a nós. Claro que sim, dissemos os portugueses e brasileiros à volta da mesa. Falou, falou muito, distendido, alegre e entusiasmado pela projecção que a sua obra estava a ter no Brasil, aliada ao facto de a todo o tempo receber provas de afecto não só na esfera intelectual, mas também nas livrarias e na rua. A fama assentava-lhe bem. Já depois de 1998, acidentalmente, encontro-o diversas vezes na Gulbenkian, uma delas no jardim, sempre de mão dada com Pilar. Trocámos palavras de circunstância, o Nobel notava-se embora sem sobressair demasiado. Foi amável. Dos livros falam os outros, rememoro as vezes em que tive a possibilidade de o conhecer melhor. Mas faço questão em citar o conto – Cadeira – em Objecto Quase, editado em 1977. Leiam-no e ficam a perceber melhor as contas e querelas subsequentes tidas com a Igreja.

Daniel Abrunheiro

MAGO

Tudo no mundo está dando respostas. O que demora, é o tempo das perguntas. Descoberta literária grande, esta em citação supra. É de José Saramago, em Memorial do Convento.  Era ribatejano, este José. Procurou Deus fora das igrejas e fora dos homens. Não logrou encontrá-Lo. Encontrou modo de ficar fora da vida e fora da morte. Escreveu o tal Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Não é nada pouco. Repito a citação: Tudo no mundo está dando respostas. O que demora, é o tempo das perguntas. Eis, portanto, o senhor Isaac Newton debaixo da macieira, caindo a maçã, perguntando-se Isaac por que raio terá ela caído. Daí à Lei da Atracção Gravítica Universal e a Saramago, um instante mero no vórtice do Tempo. O Vaticano gostou de que o velho comunista agnóstico tivesse morrido. O problema é nenhum: os papas também morrem, até os coniventes com o nazismo, como Pio XII. As inquisições nunca passam de moda, como aliás as maçãs não deixam nunca de cair. Não quero saber. E outro não: não é a morte do nosso Nobel literário que celebro, mas a sua vida activa. Queria fazer determinada coisa, determinada coisa fez: bons livros.  Se foi do PCP, se saneou em 1975 o Diário de Notícias, se foi serralheiro, se foi casado com esta portuguesa e com aquela espanhola – quero lá saber. Sei que as maçãs, como os homens, continuam a cair. Só que alguns caem menos dos que outros. Levantam-se do chão. Como, por magia, Isaac Newton.

Carlos Chaparro

(Professor de Jornalismo na Universidade S. Paulo – Brasil)

www.oxisdaquestao.com.br

PEQUENO TRIBUTO A JOSÉ SARAMAGO

Morreu José Saramago, o escritor que levou a língua portuguesa às glórias universais de um Prémio Nobel. E o luto se estende bem além dos limites lusófonos; está de luto o universo da literatura mundial, ao qual, com os autores que escrevem, pertencemos todos nós, cúmplices na leitura.

Quer se goste ou não do que José Saramago escreveu, ou das formas como escreveu, há que assumir luto por sua morte. Sem tristezas, porém. Porque, sempre que quisermos, poderemos reencontrar o escritor em qualquer das suas obras maiores, e nelas, nos deixarmos prender pelas irrecusáveis teias interlocutórias da narratividade saramaguiana. Teias nas quais nos transformamos de leitores em narratários.

Para estimular reencontros, e em reverência à memória de José Saramago, republico um pequeno texto que escrevi em  em 1998, logo após a conquista do Nobel de Literatura.

Vidas em frases

Na aula nocturna daquela sexta-feira de Outubro de 1998, em plena euforia pela outorga do Prémio Nobel de Literatura a um escritor de língua portuguesa, propus aos meus alunos uma conversa sobre José Saramago. E foi emocionante ver, ouvir, sentir a alma em festa de boa parte dos jovens da classe. Não tanto por Saramago, do qual poucos haviam lido alguma coisa, mas pela exaltação da língua portuguesa que ao mundo se espalhou. Um dos alunos, olhos brilhando, falou mais alto: “Nada li dele até agora. Mas quando ouvi a notícia, foi como se eu também tivesse ganho o Prémio Nobel, porque eu e o Saramago somos da mesma língua”. Falava por si próprio, mas sintetizava as falas e os silêncios do grupo.

Saramago, o artista do léxico, o transgressor da sintaxe, é um criador de semânticas inesperadas, que incomodam tanto quanto encantam. E nos afazeres artísticos de dar formas de frase às muitas vidas que enxerga, usa o cinzel da palavra, o mais cortante de todos, afiadíssimo em suas mãos, para simulações da realidade que dão o que pensar. Ele não recria apenas o mundo; recria em cada obra a própria língua, dando-lhe, na dimensão escrita, usos e formas que só ele sabe dar - na arte de narrar, descrevendo; na arte de descrever, argumentando; na arte de argumentar, narrando.

No seu ofício de escritor, vejam só que habilidades e liberdades novas ele ensinou à vírgula:

“O cego e a cega descansavam agora, já separados, um ao lado do outro, mas continuavam de mãos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou aqui, e, sendo assim, como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro está, não é só a voz do sangue que não precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, também tem a sua palavra a dizer.”

Das habilidades e liberdades da vírgula não falei aos alunos, mas de alguns dos outros muitos recursos que a literatura pode emprestar ao jornalismo. Talvez o exemplo não esteja na passagem de José Saramago pelas redacções. Na meia dúzia de resumos biográficos que li, pouco ou nada se fala da sua fase de jornalista. Parece que nem ele tem em bom apreço esses tempos. De qualquer forma, ainda bem que optou pela literatura, onde, sem renunciar, muito ao contrário, às ideias da própria identidade, pode, em dosagens livres, misturar a ficção à realidade para descarnar ou revestir os ossos do mundo em que vivemos.

“Levantado do Chão”

Fátima Vasques, 19 de Junho de 2010

Não foi por acaso que conheci o escritor e o seu escrito. Estava quase com 21 anos quando compro o meu marco saramaguiano, Levantado do Chão, em Lisboa. Não me recordo exactamente onde, mas muito provavelmente no espaço Apolo70, procurado pela liberdade de gestos e sons, que não tínhamos em Santarém excepto com o saudoso Castela, que nos dava a ouvir e a ler os franceses, as franjas, os marginais de cabelo comprido, as mini-saias, a poesia crítica, Ferré e tantos outros. Até os sul-americanos, gente imprópria para consumo no ambiente conservador da feira de vaidades que então perfilava.
Possuo, assim, uma querida 2ª edição, preciosa, datada e assinada, a lápis, como assim deve, “fátima rios vasques, lx, outubro.81.”
Ainda, “para a cadeira de teoria da literatura, 4º ano da faculdade de letras, ano lectivo 81/82.” Na memória, tenho o nome de Cândido Beirante, que então nos apresentou a novidade, felizmente acompanhada com os traços “outros” que já marcam presença e jamais abandonarão o estilo do escritor em causa.
E foi até hoje. Será para sempre.
Continuo a ver, agora sem surpresa, que do Autor já aqui estão inscritas 13 obras (incluída a 1º edição da mesma, de 1980), desde Os Poemas Possíveis, de 1966! A publicar, refere-se o romance O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Convento (ainda sem o título que o tornará célebre, como se pode verificar).
Sempre a lápis, inscrevi, sem data, “Quem escreveu Levantado do Chão” um dia mais tarde será Prémio Nobel…”, palavras que atribuo a um primo da Azinhaga, em directo a uma reportagem da SIC.
Leio, ainda, com a data de 8 de Novembro de 1998, as palavras do autor ouvidas em directo, da SIC, já galardoado com o Nobel, “Eu tenho a consciência de que não nasci para isto…”. Acredito na sua verdade.
Principalmente inscrevi, com sublinhado, o que eu considerei então, e ainda considero, a “consistência do sonho do Homem”; passo a transcrever: “A grande problemática: Como é que chegamos ao conhecimento do outro e como é que isso nos leva ao conhecimento de nós próprios….”.
Da contracapa desta obra única do escritor que, até ontem, era para Harold Bloom o maior novelista vivo, retiro: “Um escritor é um homem como os outros: sonha.(…) Do chão, sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo.”
Quem escreveu tais palavras, um dia, não terá morrido ontem. A imortalidade não consentida pelo homem que partiu, fisicamente, terá de compreender que as 35 obras publicadas são a sua imortalidade.
2010 é, será, o ano da tua morte.


Bruno Oliveira

Jornalista de O Ribatejo

LER O MUNDO NA LITERATURA DE SARAMAGO

Quem lê os outros, lê-se a si próprio. O Homem sempre procurou reproduzir e produzir conhecimento sobre si, através das mais variadas formas. A literatura tem sido um espaço privilegiado para estabelecer este encontro do ser humano consigo próprio, reflectido nos outros «outros» da narrativa. A omnipresença do contador de estórias é um dos topos da utopia humana na busca da perfeição divina. O transcendente ultrapassa-nos e é por isso que lá queremos chegar. O desconhecido atemoriza e é por isso que procuramos a omnisciência. E tanto melhor se a encontrarmos em algo aparentemente inócuo como é um livro relatando uma estória ficcionada. Mas, e se o poder da palavra ultrapassar o poder paralizante do medo ou da ignorância? E se o abalo psicológico causado pela ficcionalização do real for mais destrutivo do que a simples tomada de conhecimento desse real. E se o inquietante domínio, por parte do narrador, das possibilidades de comunicação de uma realidade desconhecidamente conhecida, for algo absurdamente lancinante e mentalmente revolucionário?

É exactamente este poder comunicacional que me fascina no escritor José Saramago. Muito mais do que o seu talento estilístico, muito mais do que o seu elevado grau de sagacidade mental e destreza técnica, muito mais do que o simples facto de concordar ou não com ele, o que me atrai neste artista é a sua capacidade de ler o mundo, mas um mundo que existe para além das fronteiras do concreto das acções. O «mundo» (ou mundos) da obra de Saramago são símbolos de uma capacidade imaginativa ímpar. Contudo, são produto das contingências que a realidade palpável apresenta ao escritor. E por isso mesmo, não deixa de ser um reflexo da sua condição humana enquanto ser vivo. O próprio Saramago pensa assim: “Se pudesse referir uma frase que definisse o meu trabalho, seria: «Escrevo para compreender.»” Veja-se o quanto é fascinante esta ideia de escrever para compreender, para prender a compreensão do leitor, para apreender a tensão do seu processo interpretativo, para lhe abrir uma janela possível para o real (seja ele qual for). E, além disso, veja-se o papel que é dado à imaginação. O próprio autor chega a afirmar: “Se, no final do século XIX, os grandes sábios, filósofos, cientistas, se reunissem para imaginar como seria o mundo cem anos depois, não acertariam em nada. A imaginação deverá servir para resolver as questões de hoje.” E acrescenta: “A escuridão está aí, a inteligência conseguiu implantar alguns pequenos faróis, luzes, para nos orientarmos. O facto de existir uma espécie humana devia dar-nos um sentido de humildade perante a majestade do universo, mas em vez disso, (…) temos sete mil milhões de seres humanos que não resolvem senão numa parte ínfima dos seus problemas.” É bom pensar nestas palavras de Saramago, nomeadamente, no facto de poder haver um maior comedimento das pessoas no que respeita à sua importância e papel no mundo. Lembremos o que a arrogância humana pode causar: pobreza, morte, fome, poluição, etc. Mas, já José Luís Borges afirmava: “O livro é uma extensão da memória e da imaginação”. Ou Julien Green que diz:”Um livro é uma janela pela qual nos evadimos”.

José Manuel Mendes classifica os livros de Saramago como “livros do nosso desassossego” e realmente podemos verificar isso a partir do momento em que lemos uma das muitas interrogações que nos são colocadas através das ficções saramaguianas. Antes de mais, porque o ficcionista prefere a interrogação e o desafio, o lado sonegado do real, um imaginário perturbador, renunciando às lógicas concertadoras, sedimentadas num jogo de previsão dos gostos correntes. E di-lo sem tibieza: “Os escritores não têm que andar cá para tranquilizar, suponho mesmo que é nosso dever intranquilizar toda a gente”. É como se chegássemos à obra de Saramago prontos para reconhecer o que vamos ler nos traços de realidade que conhecemos. Mas, em poucas páginas de leitura, percebemos que a capacidade narrativa e imaginativa do autor suplantam essa barreira das convenções. Quantas são as vezes que a estória nos assalta a mente com reflexões filosóficas, linguísticas, para-linguísticas, político-ideológicas, sexuais, raciais, etc. A utilização frequente de um meta-discurso sobre a narrativa é um dos traços mais marcantes de Saramago. A alusão a provérbios populares (quase sempre adaptados pelo autor) é outra das referências do estilo saramaguiano. E ainda, uma outra característica muito marcante é o recurso a reflexões interiores das personagens que estabelecem uma paragem no tempo da acção mas que, por vezes, apresentam um desenvolvimento na história. Isto é, imobiliza-se a acção das personagens mas os seus pensamentos dão-nos a conhecer partes da história que o autor nos quer contar.

Para além destas reflexões interiores, estão presentes, nos textos, muitas marcas de juízos morais do próprio escritor para com as situações por si criadas. Ele é o seu próprio crítico e é o crítico da sociedade que pensa e que vive de uma determinada forma. Estes juízos morais e estilísticos são intercalados pelo meio dos diálogos das personagens, por entre o desenrolar de uma acção ou de uma reflexão interior. Este processo torna as frases em longos períodos de ideias, longas estradas recheadas de atalhos que somos levados a percorrer. Não perdemos o fio condutor mas encontramos outros fios paralelos à estória principal. Aliás, a principal riqueza da escrita de Saramago, para além das histórias invulgares e tipicamente ensaísticas, é a multiplicidade de intertextualidades com outros textos, principalmente com o senso comum e com a linguagem popular, mas também com a linguagem bíblica e religiosa que perpassa em muitas das nossas marcas de oralidade.

Tendo falado do narrador, debruço-me agora sobre o papel do leitor. Na minha opinião, qualquer leitor deve ter a curiosidade aliciante da personagem Sr. José do livro Todos os Nomes. Este funcionário de uma conservatória do registo civil vivia um projecto baseado nos valores modernos da ordem, mas pisa o risco e a ameaça de labirinto passa a dominá-lo. Também o leitor interessado de uma obra «pisa o risco» da fronteira ténue entre realidade e ficção e acaba por transgredir os códigos e padrões de um pensamento extremamente condicionado pela materialidade das rotinas quotidianas. Ao ultrapassar esta barreira e, ao adquirir determinado conhecimento sobre o que fica «além-mar», o aqui e o aquém-imaginação são experiências concretas extremamente dúbias e sobre as quais ele vai reflectir com outros olhos. É como se ficasse munido daquelas capacidades que só os profetas e os videntes possuem. Mas, muito além destas capacidades, o que nos assalta é uma inquietude mental deveras acutilante e enigmática.

Como pensar o mundo, depois de ler um retrato da sociedade contemporânea (e até mesmo, da sociedade de todos os tempos) no livro Ensaio sobre a Cegueira que descreve um cenário alarmante para a dignidade e civilidade humanas? Atente-se na parte em que, neste livro, e tomando em conta todos os problemas inerentes a uma reclusão quase de campo de concentração agravada pela cegueira incapacitante, as pessoas do manicómio depressa começam a digladiar-se pelos bens essenciais, a lutar pelo poder, pela dominação cega de um grupo de cegos. O aspecto importante é que este «micro-clima» do manicómio acaba por reflectir muitas das atitudes e comportamentos sociais e individuais do ser humano. “O mundo está todo aqui dentro.” – diz a mulher do médico. Isto reflecte-se também na repartição da comida e em toda a organização social e hierarquização de funções que se estabelece na vivência no manicómio. É visível, nesta estória, a importância que o autor confere à mulher no decurso de todo o seu trabalho literário. Saramago chegou mesmo a afirmar numa entrevista: “O modelo masculino do mundo falhou e as mulheres ainda não foram postas à prova”. No Ensaio sobre a Cegueira, nesse mundo de trevas brancas, a mulher do médico – única personagem a não cegar – é voz da lucidez. Essa mulher transporta a esperança e a clarividência. Pode ser considerada, num sentido benjaminiano, um anjo que vê lucidamente, que faz cintilar as ruínas. A mulher do médico encarna muitas heroínas: a Blimunda do Memorial do Convento, como facilmente se depreende de frases como esta: “levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas”; a Maria Madalena do Evangelho a guiar Jesus pelo túnel criado por Deus e que era a sua vida.

Como pensar os conflitos entre modernidade e pós-modernidade depois de os encontrar, em todos os seus aspectos mais perversos, no livro A Caverna? Será que o mundo «cá de fora» (aquilo que se entende por realidade) é mesmo assim? Ou será pior? Provavelmente, será mais concreto. Mas será mais real, mais verdadeiro? “Quid es veritas?” perguntava Pilatos a Jesus Cristo antes da crucificação. O que é a verdade na obra literária, e o que é a ficção? Até que ponto a verdade da ficção não pode ser uma ficção da verdade? Ou quiçá o contrário seja verdadeiro, isto é, em que medida é que a verdade da realidade não é uma ficção da imaginação? Confusos?! Também eu. Mas este modesto jogo de palavras que aqui construí é um nada perante o enigma semiótico presente em muitas das obras de Saramago. O seu poder narrativo também passa pela sua enorme capacidade de jogar com o sentido mais literal das palavras e dos seus significados, e de nos pôr a pensar se o que dizemos é aquilo que queremos dizer, se o que queremos significar com uma palavra ou expressão é aquilo que essa palavra ou expressão significam. Pensemos numa expressão que usamos frequentemente: «Hás-de ver!» – dizemos isto como que a encorajar o outro interlocutor ou a desafiá-lo para algo que afirmamos ser capazes de fazer. Quantas vezes já dissemos: «Hás-de ver que sou capaz!». Imaginemos então esta e outras expressões usadas no livro Ensaio sobre a Cegueira e, justamente, ditas por cegos para cegos. É de um sarcasmo atroz!

Aliás, este livro marca de tal forma o leitor que difícil será para este livrar-se da visão e do cheiro de tanta miséria e de tanta porcaria que, no fundo, caracterizam este mundo. Mundo que, para não a ver e para não a cheirar, constrói tapumes de cartão e espalha perfumes à volta. Não seria aquela cegueira toda afinal um momentâneo vislumbre de visão? “Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.” – são estas a últimas linhas do livro. É realmente desconcertante a mensagem e a estória construídas por Saramago. Mas mais desconcertante é a sua extrema sabedoria de não resolver totalmente nenhum dos enredos e de deixar sempre algo em aberto. Assim o fez de forma muito visível no seu livro O Homem Duplicado. Assim também o fez com o Ensaio sobre Cegueira, livro que tem uma continuação visível no mais recente Ensaio sobre a Lucidez. Muito se disse sobre esta obra de Saramago, assim como se criticou a obra Caim. Sobre estes livros apenas digo aquilo que digo sobre todos os livros: são estórias! Mais ficcionadas, menos ficcionadas, mais acutilantes ou mais inofensivas, são estórias. Assim como o livro O Evangelho segundo Jesus Cristo, que provocou tanta polémica na altura do seu lançamento, e que ditou o afastamento do escritor de Portugal. Não digo que sejam estórias ingénuas, desinteressadas, sem ideologia por detrás. No entanto, são ficções, muitas vezes, bem próximas da realidade e, por isso mesmo, mais pertinentes do ponto de vista da sua publicação. É preciso abrir as mentes dos leitores com estórias fortes, duras se for preciso, mas ainda assim que sejam apelos para a clarividência e discernimento dos leitores e da sociedade em geral.

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Publicado por on Jun 24 2010. Arquivado em Especiais, Lazer. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

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