Trabalhadores e especuladores
Opiniões online Sábado, Maio 1st, 2010Por: Armando Fernandes
Na vida ao ritmo da crise e não ao ritmo do grupelho, da aldeia, da cidade ou da nação, na vida ao ritmo do Mundo as relações de trabalho sofreram uma tremenda transformação, que neste momento só em Portugal redundam em meio milhão de pessoas sem trabalho. É muita gente, que começou por ter esperança numa vida qualificada e que, cada vez mais, tem escassas hipóteses em ter um futuro sem dificuldades. Para muitos o horizonte é negro num fundo de miséria, amargurando-lhes o quotidiano e a justificar maldades contra os outros e a propriedade. E, no entanto, os especuladores soltam risos de hiena satisfeita pois as negociatas proporcionam-lhes almofada e colchão de penas – mesmo que possam ser condenados a recolhimento na cadeia. Se não estou a exagerar? Não, não estou caro leitor. Veja lá as contas desatinadas de João Rendeiro – o banqueiro maravilha – recebeu três milhões de euros no ano da falência do BPP, mas o banco em dez anos pagou-lhe doze milhões, tendo ele declarado bem menos ao fisco. Só os desempregados e os aflitos por não poderem pagar as dívidas apreendem na totalidade a infâmia do proceder do mágico financeiro, enquanto ele ensaia máscaras de fingimento a fim de passar por angélico rapaz sem mancha de pecado. Uma vergonha a envergonhar-nos a todos, o feiticeiro Madoff foi julgado e condenado rapidamente, o seráfico Rendeiro vai continuar a usufruir da fortuna amassada num ápice, sem sombra de remorso e protegido por muros, barreiras e as costas largas dos seguranças. Enquanto a continuidade do desemprego não sofre ameaça de alteração, antes pelo contrário, em vésperas do Dia do Trabalhador, ninguém fica indiferente perante a arrogância de um boy principescamente pago, apesar de não possuir currículo nem carreira, o qual logrou espantar os deputados ao negar-se a responder a perguntas e aproveitar o momento para defender o primeiro-ministro. Decerto, segundo as melhores tradições da culpa morrer solteira, o querubim Rui Pedro Soares sairá ilibado, tendo os contribuintes sorte senão lhe pagarem choruda indemnização. Ninguém gostou de ouvir o checo Klaus a dar um raspanete a Cavaco Silva, no entanto, o homem tem carradas de razão. Mas as culpas não podem ser imputadas aos trabalhadores, aos desempregados, aos reformados, aos meninos, aos pobres de pedir, aos desgraçados, às vítimas da fome, aos doentes, às raparigas das casas de alterne e a trabalharem na berma das estradas, aos cauteleiros, aos, aos.
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