Quando a palavra Soeiro é sinónimo da dedicação ilimitada
Lazer Domingo, Março 7th, 2010Por: Beja Santos
Se Soeiro Pereira Gomes é o nome de um escritor que falou das crianças a viver a canseira dos trabalhos adultos e sonhou partilhar a vida até ao esgotamento de vida, se se cumpria lembrá-lo no centenário do seu nascimento (1909 – 1949) mostrando-o na integridade sua obra literária e da sua consciência cívica e política, então o Museu do Neo-Realismo excedeu-se quando nos dá, em tocante exposição, todo o homem em toda a sua doação, exibindo todo o património disponível, numa museografia impecável.
É urgente ir até meados de Março à Rua Alves Redol, 45, em Vila Franca de Xira, ao Museu do Neo-Realismo. A evocação “Soeiro na esteira da liberdade” só aqui podia ser feita, porque só aqui estão estes documentos únicos, como objectos pessoais, fotografias, cartazes de peça, manuscritos literários, peças de intervenção política, desenhos. O catálogo, cuidadosíssimo e com um estudo irrepreensível de Manuel Gusmão, completa o esclarecimento sobre a vida e obra de Soeiro. Duvido que se pudesse ter ido mais longe em seriedade e rigor, nesta iniciativa museológica. Para quem duvide de que é imprescindível ir até lá, nada como descrever o que espera o visitante. Isto para já não falar de uma importante exposição permanente, mais a homenagem a Urbano Tavares Rodrigues e a exposição de João Fonte Santa, um pintor que trabalha retratos e imagens na grande tradição narrativa do século XIX.
Ficamos com uma imagem da infância de Soeiro, nas serranias do Douro, depois os estudos (cursou para ser regente agrícola), segue-se a ida para Alhandra onde vai trabalhar nos escritórios da fábrica Cimento Tejo. É aqui que se inicia a intervenção cultural em conferências, na colaboração jornalística, no seu apoio à construção da piscina de Alhandra. Escreve Esteiros, a sua obra-prima com a seguinte dedicatória “Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro”, uma singularidade na literatura neo-realista. Concilia a sua intervenção política com a de escritor, em 1944 passa à clandestinidade onde irá viver praticamente até à sua morte. É, inegavelmente, uma obra literária reduzida para tamanha aventura meteórica, correu todos os riscos, ofereceu toda a sua intervenção, construiu redes, alimentou esperanças, sonhos, participou de corpo inteiro em toda a reorganização do PCP, de que foi membro dirigente.
Vendo esta exposição do princípio para o fim e do fim para o princípio, tem de perguntar-se se foi o cidadão escritor que abriu as portas ao militante político ou se as figuras se confundiram a ponto de o militante político ter recorrido à escrita para incendiar as consciências, num chamamento estético à razão. No decurso da exposição é patente, sobretudo na sua intervenção nos últimos anos, que a carga panfletária tomou conta da escrita, dominando-a, e que de tal absorção se veio a ressentir, até porque de um militante que vivia toda a dureza da clandestinidade se tratava, a qualidade literária do seu derradeiro legado.
Manuel Gusmão disseca a estrutura dos Esteiros, havendo que concordar que a sua arquitectura é ágil, recorre a metáforas compreensíveis e muito belas, é fenomenal na passagem das mensagens.
Percorremos esta vida breve, intensa, entusiasmada, vibrante em toda a dedicação, e recordamos outras vidas breves sobre as quais é uma tolice estar a perguntar o que teria acontecido se mais vida houvesse, como de Santa Rita pintor ou de Amadeu de Souza Cardoso houvesse modo de fazer juízos deslocados à conta de uma contabilidade profética.
A exposição dá-nos a imagem do ardor desses 40 anos: declamando poesia nos passeios do Tejo, a bordo da fragata Liberdade, onde juntou amigos e se podia conversar sem medo do ódio político; a ginástica e a natação, as coplas do teatro de variedades onde se empenhou com a mulher, Manuela Câncio Reis, os manifestos do PCP que escreveu com a sua letra bonita, as ternas dedicatórias aos seus camaradas com quem partilhou todos os sonhos até ao fim. A exposição dá-nos Soeiro de corpo inteiro, um homem que sabendo-se condenado toma as suas últimas disposições repartindo generosamente, afectuosamente, os seus “trastes”, despedindo-se lucidamente de todos. E a exposição termina com a homenagem de amigos e admiradores como Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Carlos de Oliveira e Arquimedes da Silva Santos. Pode sair-se reconfortado desta exposição que atesta o vigor do trabalho do Museu do Neo-Realismo a pensar na saudação que lhe dedicou Carlos de Oliveira:
Mais vivo porque sofreste,
a morte não veio, foi-se.
A Eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.
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