Museu Controverso
Opiniões online Terça-feira, Março 9th, 2010Por: José Eduardo Marçal
Desloquei-me com familiares e amigos a Salamanca com o intuito de visitar o “Museu Arte Déco e Arte Nova da Casa Lis”. A notável colecção de peças de arte expostas, desde peças de Lalique até Fabergé, coloca este museu a um nível ímpar na Península Ibérica.
Na sequência da visita, reflecti sobre o controverso museu que alegadamente se pretende construir em Abrantes. Tenho sérias dúvidas sobre a sua viabilidade e concretização. Desculpar-me-ão, mas começo a estar cansado de que ciclicamente os nossos autarcas apareçam com grandes parangonas, revestidos do papel de mensageiros evangélicos, anunciando a “Boa Nova” e os megas investimentos que vão ser colocados no concelho. Só lhes falta a barba branca, o cajado e o olhar possuído do Charlton Heston, para a “coisa” ficar mais credível.
Mas concentremo-nos no projecto do museu. Em primeiro lugar para que serve o museu? Para ser um lugar de exposição e divulgação do nosso património cultural? Para ser uma referência de Abrantes? Para honrar o nosso passado histórico/cultural? Se forem estas as premissas o meu apoio é claro. Caso apenas se pretenda afagar o ego de alguns, expresso desde já o meu desacordo. Não deveria aproveitar-se esta oportunidade para exibir igualmente peças e obras relevantes de outros vultos da cultura abrantina e com isso honrarmos a nossa história local? Abstenho-me de indicar nomes, mas de certeza que os abrantinos que me lêem se estarão a lembrar de alguns.
Importa repensar todo o projecto cultural subjacente ao museu. E o que dizer em relação ao invólucro proposto? Desde já manifesto a minha preocupação pelo conceito estético. A patente falta de integração urbanística é evidente e urge encontrar uma solução mais feliz. Não sendo só da responsabilidade do arquitecto as grandes opções do projecto, deixem-me colocar uma última questão. Quem são os técnicos que asseguraram a Coordenação de Segurança e Saúde do Projecto? São reconhecidos como possuindo o nível exigido pelas suas organizações profissionais? Termino, manifestando a minha solidariedade ao Arquitecto António Castel-Branco, também ele uma voz crítica do projecto. A confirmar-se o que afirmou em outro periódico local, tal situação não é admissível e merece o nosso repúdio. Julgamentos por delitos de opinião são coisa do passado. Espero que a Ordem a que pertenço nunca entre por estes caminhos.
* Engenheiro Civil, Coordenador da Especialização de Segurança do Trabalho na Construção da Ordem dos Engenheiros
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