Os interesses da nação…
Opiniões online Sexta-feira, Janeiro 29th, 2010Por: Eurico H. Consciência
O Fernando Madrinha, em tom severíssimo, criticou num Expresso de Novembro a Corticeira Amorim, do Sr. Américo Amorim, que se diz que será o homem mais rico deste país, porque a dita Corticeira anunciou um lucro líquido de quase 6 milhões de euros no 3º trimestre deste ano (um aumento superior a 60% em relação ao 3º trimestre de 2008), estranhando que essa empresa, que tamanhos lucros tem, tenha despedido em Fevereiro quase 200 trabalhadores, com a desculpa da crise.
Não sei que conhecimentos económico-empresariais tem o Fernando Madrinha, mas não serão grandes. Porque, doutra forma, não teria escrito a barbaridade que referi. Porque, como se ensina nas Novas Oportunidades, o lucro constitui a remuneração dos riscos que o patrão corre. Logo, aqueles 6 milhões pertencem ao Sr. Américo Amorim, para compensação dos riscos que corre quando emprega pessoas nas suas empresas, e, se não tivesse despedido aqueles quase 200 empregados em Fevereiro, não teria agora aqueles justos lucros de quase seis milhões, porque esses quase 6 milhões teriam sido gastos no pagamento dos salários daqueles quase 200 empregados. Façam as contas, que logo vêem: partam do princípio de que o terceiro trimestre de 2009 tem tantos meses como os outros trimestres. E que cada trimestre tem três meses – sendo que será por isso que se chama tri/mestre. Terão que se multiplicar os salários dos trabalhadores por 200, por tantos (ou quase) serem os trabalhadores despedidos, e depois multiplica-se o resultado por 7 ou 8, visto que aos 3 meses do terceiro trimestre terão que somar-se os 3 meses do 2º semestre e o mês de Março ou os meses de Fevereiro e Março se os trabalhadores foram despedidos no fim de Janeiro, porque, como sabem, os meses de Fevereiro e Março integram o 1º trimestre e os quase 6 milhões de lucros líquidos foram realizados nos meses do 3º trimestre, que, se a memória me não falha, são Julho, Agosto e Setembro.
Portanto, temos que multiplicar o salário mensal médio dos quase 200 trabalhadores despedidos pela Corticeira Amorim em Fevereiro por 7 ou 8. Façamos por cima: por oito. O salário médio de cada trabalhador, na maior corticeira do país e que certamente será a maior do mundo, dado o quase monopólio que temos da cortiça, não será inferior a 750 euros. Operemos: 750 € x 200 empregados x 8 meses = quase 6 milhões de euros.
Já viram: se o Sr. Amorim não tivesse despedido aqueles 200 empregados, não teria tido lucros no 3º trimestre e a Corticeira Amorim poderia ficar insolvente, com grave prejuízo para a nação. E com a nação é que se preocupam sempre os empresários.
(Dizem-me que as minhas contas estão mal feitas. Que, se o Sr. Amorim não tivesse despedido ninguém, ainda teria ganho mais de 4 milhões no 3º trimestre. Dizem-me também que o salário médio dos trabalhadores da Corticeira não atinge os 750 € com que contei. E dizem-me que e não sei quê, coisas que já não ouço e de que nem quero saber porque, sim, eu sempre fui fraco na matemática, mas vocês nem contas querem; o que querem é dizer sempre mal dos grandes empresários, que andam sempre preocupados com a nação, com o nosso conforto, etc., prontos, acabo aqui…
Só acrescento um desabafo: o F. Madrinha teve o descaramento de terminar assim o seu escrito:
“Agora que se demonstrou o logro e o oportunismo daqueles despedimentos, fica o país à espera de que o Governo – recorrendo aos tribunais, se necessário – imponha à Corticeira Amorim a readmissão dos trabalhadores que desejem regressar.”
Que desaforo! O Fernando Madrinha deve ter-se passado!
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