Home » Opiniões online » “Artes” de fazer multidões

“Artes” de fazer multidões

Por: Carlos Chaparro*

Por pelo menos duas décadas e meia, vivi e trabalhei sob a ditadura salazarista. E a estudei, em suas formas políticas, sociais e policiais de agir para afirmar e exercer poder absoluto sobre consciências e vontades. Com a violência (explícita e/ou possível) da repressão policial, da censura prévia, do partido único, da aliança quase indestrutível com os mais ricos e da disseminação do medo entre as multidões pobres e desinformadas, Salazar construiu uma ditadura que reinou e resistiu por 45 anos. Assente em um solidário tripé formado pelo poder policial, pelo poder económico e pelo poder político do partido único, a ditadura salazarista adquiriu vida própria, sobrevivendo ao próprio ditador. Como qualquer ditador competente de qualquer tendência ideológica, Salazar foi um fabricante de “verdades” incontestáveis, e as impunha como “verdades” da Pátria.

(…) Sei lá por quê, me vêm à lembrança todos esses cenários do salazarismo sempre que vejo as impressionantes fotos das multidões chavistas, em Caracas. Milhares de pessoas uniformizadas, amalgamadas na unanimidade da cor vermelha e do gestual do punho erguido. E a multidão se entrega a slogans proclamados como “verdades”.  “Verdades” em torno das quais se celebram os acordos da adesão sem questionamentos à vontade política de Chávez.

Sei, porém,   que a “realidade Chávez” pouco ou nada tem a ver com a “realidade Salazar”. Chávez foi democraticamente eleito, em eleições acompanhadas de perto por observadores internacionais. Tem e exerce um poder recebido das urnas. E, quer se goste ou não do seu estilo dramaticamente populista, é um líder verdadeiramente forte no seu país. Onde a oposição continua a existir e a manifestar-se, não sei com que limitações e possibilidades.

Mas que Hugo Chávez tem jeitos, trejeitos e impulsos de ditador, lá isso tem. Tão fortes, que nem ele faz questão de escondê-los. Como se trata de um político de razoável estofo intelectual, não custa a crer que tenha estudado muito bem as artes e malas-artes dos grandes ditadores retóricos do século XX – de Hitler a Fidel Castro. Pelas demonstrações que dá, não só estudou tais artes e malas-artes, mas as actualizou, adequando-as às suas ambições pessoais.

Porém, como problema ou como solução, Chávez pertence aos venezuelanos. Razão mais do que suficiente para parar por aqui, propondo aos leitores a seguinte idéia-chave:

Criar um pensamento mágico que não passa pela razão é a lógica das manhas e artimanhas da manipulação, das quais fazem parte os slogans, o gestual e os símbolos, responsáveis pela mediação entre os instintos e as opiniões. Sempre com o apoio de mecanismos de repetição – como Salazar fazia e os ditadores e demagogos de hoje continuam a fazer.

* Professor jubilado da Universidade de S. Paulo
(texto integral em www.oxisdaquestao.blogspot.com.br)

Outras notícias que lhe podem interessar

  1. Governo de Salazar por Veríssimo Serrão
  2. Projecto luso no jornalismo brasileiro

Short URL: http://www.oribatejo.pt/?p=4533

Publicado por on Jan 18 2010. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

Leave a Reply

© 2012 O Ribatejo. All Rights Reserved. Iniciar sessão - Designed by Gabfire Themes - modificado por Marco Dinis Santos