“Artes” de fazer multidões
Opiniões online Segunda-feira, Janeiro 18th, 2010Por: Carlos Chaparro*
Por pelo menos duas décadas e meia, vivi e trabalhei sob a ditadura salazarista. E a estudei, em suas formas políticas, sociais e policiais de agir para afirmar e exercer poder absoluto sobre consciências e vontades. Com a violência (explícita e/ou possível) da repressão policial, da censura prévia, do partido único, da aliança quase indestrutível com os mais ricos e da disseminação do medo entre as multidões pobres e desinformadas, Salazar construiu uma ditadura que reinou e resistiu por 45 anos. Assente em um solidário tripé formado pelo poder policial, pelo poder económico e pelo poder político do partido único, a ditadura salazarista adquiriu vida própria, sobrevivendo ao próprio ditador. Como qualquer ditador competente de qualquer tendência ideológica, Salazar foi um fabricante de “verdades” incontestáveis, e as impunha como “verdades” da Pátria.
(…) Sei lá por quê, me vêm à lembrança todos esses cenários do salazarismo sempre que vejo as impressionantes fotos das multidões chavistas, em Caracas. Milhares de pessoas uniformizadas, amalgamadas na unanimidade da cor vermelha e do gestual do punho erguido. E a multidão se entrega a slogans proclamados como “verdades”. “Verdades” em torno das quais se celebram os acordos da adesão sem questionamentos à vontade política de Chávez.
Sei, porém, que a “realidade Chávez” pouco ou nada tem a ver com a “realidade Salazar”. Chávez foi democraticamente eleito, em eleições acompanhadas de perto por observadores internacionais. Tem e exerce um poder recebido das urnas. E, quer se goste ou não do seu estilo dramaticamente populista, é um líder verdadeiramente forte no seu país. Onde a oposição continua a existir e a manifestar-se, não sei com que limitações e possibilidades.
Mas que Hugo Chávez tem jeitos, trejeitos e impulsos de ditador, lá isso tem. Tão fortes, que nem ele faz questão de escondê-los. Como se trata de um político de razoável estofo intelectual, não custa a crer que tenha estudado muito bem as artes e malas-artes dos grandes ditadores retóricos do século XX – de Hitler a Fidel Castro. Pelas demonstrações que dá, não só estudou tais artes e malas-artes, mas as actualizou, adequando-as às suas ambições pessoais.
Porém, como problema ou como solução, Chávez pertence aos venezuelanos. Razão mais do que suficiente para parar por aqui, propondo aos leitores a seguinte idéia-chave:
Criar um pensamento mágico que não passa pela razão é a lógica das manhas e artimanhas da manipulação, das quais fazem parte os slogans, o gestual e os símbolos, responsáveis pela mediação entre os instintos e as opiniões. Sempre com o apoio de mecanismos de repetição – como Salazar fazia e os ditadores e demagogos de hoje continuam a fazer.
* Professor jubilado da Universidade de S. Paulo
(texto integral em www.oxisdaquestao.blogspot.com.br)
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