Repartir o trabalho
Opiniões online Sábado, Dezembro 5th, 2009
Por: Joaquim Duarte, Editorial do jornal O Ribatejo 4 de Dezembro de 2009
“Portugal está à beira de iniciar um percurso para a irrelevância, talvez o desaparecimento, a pobreza certamente”. O tiro de canhão é de António Barreto, extraído da entrevista que deu ao “i”. Frase tão definitivamente céptica, que acaba por não fazer inteira justiça à estimulante conversa que o sociólogo concedeu à jornalista Maria João Avillez e que pode ser lida na íntegra em ionline.pt, uma viagem pelos muitos porquês do país que somos e do estado de alma que nos habita.
Somos um país fustigado pela crise económica e pelo pessimismo militante das nossas elites. Acordar com as manchetes dos jornais portugueses é um desânimo para o mais pintado dos cidadãos começar o dia. A lei vigente no jornalismo nacional e, em especial, no comentário político ou na blogosfera, é a do quanto pior melhor.
E o curso dos acontecimentos, tanto na economia como na política ou na justiça, tem ajudado o quanto baste: quase só más notícias, que os comentaristas de serviço conseguem pintar pior. A crise instalou-se para ficar mais demoradamente do que desejaríamos e, notoriamente, mais do que somos capazes de suportar.
O ano que está a chegar ao fim tem sido fértil em ruins notícias e as expectativas que deixa para o futuro são pouco risonhas, para não dizer mesmo deprimentes. É claro que a resposta à crise consumiu muito dinheiro público, contribuindo para agravar a dívida externa e aumentar o deficit público, mas a economia continua anémica e, como corolário do infortúnio, o desemprego a subiu agora acima dos dois dígitos percentuais.
São já 561 mil os desempregados no nosso país. Quer isto dizer que um em cada dez trabalhadores portugueses caiu no desemprego, e muitos deles sem esperança de o retomarem algum dia. Os dados esta semana divulgados pelo Eurostat, apontam para uma taxa de desemprego nacional de 10,3%, a maior dos últimos 26 anos e já acima da média dos nossos parceiros europeus.
Embora não nos sirva de consolo, há pior que nós. A nossa vizinha Espanha, por exemplo, está já com 19%, quatro milhões de desempregados, sendo um milhão de casais. Só mesmo uma grande almofada social de protecção ao desemprego pode comportar números desta grandeza sem o menor registo de confrontos públicos ou de graves perturbações sociais. É essa a vantagem de vivermos na Europa.
Entretanto, nas medidas para promover a criação de emprego, Zapatero já anunciou que o seu governo vai incluir a redução do dia de trabalho em Espanha. Se não há trabalho para todos, reparte-se mais justamente o que há.
Temos dúvidas de que por cá, esta ideia da redução do dia de trabalho, mesmo se como ajuste temporário motivado pela crise, fosse sequer tolerável, tendo em conta o discurso político dominante, em especial dos nossos dirigentes empresariais, notoriamente poucos altruístas, mas sempre de mão estendida.
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