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Natal à Portuguesa

Por: Daniel Abrunheiro

O Natal é, por excelência, a época da caça ao sem-abrigo.

O zagalote da caridadezinha municia a cartucheira dos bem intencionados sazonais cujo cristianismo tem data marcada, fora o resto do ano. As caçadeiras são à base de copos de plástico com sopa morna e fatias de pão de forma plastificado com uma tira transparente de mortadela fora de prazo.

Há prendinhas: a peúga desirmanada, o cachecol da Selecção, a pagela do Padre Cruz, o pente desdentado, o dêvêdê nº 149 das arengas tele-invasivas do professor Marcelo, o diaporama da Sãozinha de Alenquer, a costeleta de porco a pilhas, o poema do Torga, o contentor de Alcântara, o segredo de justiça, o rebuçado de fluoxetina, o laçarote daquele senhor que é pai do satélite português e que imita muito bem o Parvalhotti que Deus tem, o folheto do doutor Francisco George contra a Gripe-A e contra o resto do mundo, o rolo de papel higiénico marca Cimeira de Copenhaga, a previsão sempre-em-alta do Banco de Portugal, a escritura da geminação de Santarém com Palermo, a torrada seca também a pilhas, a fotografia do Natal passado dos manos Portas com o poster do Che e a estatueta fluorescente da Senhora de Fátima ao fundo, o Festival RTP da Canção de 1967 em cartõezinhos para colorir e colar com cuspo, o sol das terças-feiras, a infância de cada um clonada em ovos Kinder Surpresa, a visão fantasmática de Fernando Pessoa descendo o Chiado mas a sorrir à vida e às gajas que sobem a Rua Garrett, o Tejo e o Douro e o Mondego e o Guadiana e o Zêzere e o Sado uma vez na vida arribando todos juntos à mesma foz, a chuva dos sábados, o segredo crepuscular da morte e a lotaria inexorável do nascimento, a outra peúga que faltava e um beijo nas ventas.

O Natal, por tudo isto, não me entra cá em casa. Escuso de pedir mortadela à mulher. Uma vez, pedi – e ela ia-me pondo fora de casa, zona do mundo onde o mais certo é ser caçado sem apelo e com agravo cada vez que é Natal, chiça.

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Publicado por on Dez 30 2009. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

1 Comment for “Natal à Portuguesa”

  1. Daniel, não estás só. Um dia seremos mais que eles.

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