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A virtude em democracia

Por: Joaquim Duarte, editorial jornal O Ribatejo – 31 de Dezembro 2009

Ribatejano radicado no Brasil, Carlos Chaparro é um consagrado professor de jornalismo da Universidade de S. Paulo, já jubilado, que alimenta hoje um interessantíssimo e raro blogue sobre jornalismo onde, sobretudo, socializa conhecimento, através de uma aturada reflexão crítica a conteúdos e práticas jornalísticas.

Amigo de longa data desta casa, que também é sua e onde já manteve coluna regular (precisamente com o título do seu blogue: oxisdaquestao.com.br), visitou-nos há dias, numa passagem por Portugal. E uma visita de Chaparro, por mais breve que seja, é sempre um acontecimento memorável. Ficámos a saber dos seus mais recentes projectos – em especial do livro que tem em mãos sobre a arte da escrita –, como ainda da sua visão muito positiva sobre o rumo que está a tomar o Brasil. E ele, na sua vivíssima curiosidade intelectual, fez as perguntas certeiras sobre o que por cá se passa e o que nos preocupa.

Não sei já como nem porque razão acabamos nós a falar da qualidade da democracia. Sempre com o jornalismo em pano de fundo. Sei que lamentei um crónico mau viver de muita gente de poder com a liberdade de expressão – sejam eles políticos, dirigentes empresariais ou mesmo sindicalistas. Por vivida experiência jornalística. É gente que tende a confundir crítica com censura pessoal, e por isso se manifesta quase sempre intolerante na apreciação dos outros às suas práticas políticas, exercendo tantas vezes represálias sobre os que se atrevem a enfrentá-los no debate público. E alguns destes mesmos manda-chuvas mais demagogos e populistas têm ainda a distinta lata de fazerem a retórica dos grandes princípios éticos e de se apresentarem em público como campeões da liberdade e da cidadania. É este tipo de hipocrisia que campeia na nossa dócil democracia, onde em vez da discordância que podia levar à luz, temos o ruído de vozes zangadas.

Foi neste ponto que Carlos Chaparro me falou da “virtude” como tema filosófico, e do texto de Jean-François Revel, uma das melhores reflexões sobre honestidade intelectual que terá lido. Trata-se da conferência que o filósofo proferiu na Academia Francesa em 1998, para marcar o encerramento das actividades do ano da instituição. Academia fundada no século XVI e que desde então adopta a praxe de dedicar a sessão de fim de ano a um discurso sobre a virtude. A análise deste texto de Revel pode ser lida precisamente no blogue de Chaparro, de que aqui reproduzimos breve extracto.

Diante do pavoroso cenário de desastres produzidos pelas decisões políticas dos homens, Revel encerrou e sintetizou a sua reflexão sobre a virtude com duas perguntas: – E se a honestidade fosse a verdadeira habilidade? E se aprendêssemos finalmente a preferir Montesquieu a Maquiavel? 

Maquiavel deu mote à abertura da conferência, ao ser lembrada, dele, a ideia de que a política é, por sua natureza, separada e dispensada da moral. E Montesquieu inspirou o encerramento, a partir da seguinte citação: “Num governo popular, aquele que executa as leis sente que ele próprio se encontra a elas submetido. (…) Num Estado popular, há que haver uma instância a mais, a Virtude”.

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