Rouba-se demais, e a Justiça…
Opiniões online Sábado, Novembro 28th, 2009
Por: Eurica H. Consciência
Hão-de recordar-se vários dos meus leitores da Maria Rattazzi, não me lembro já se Condessa ou Princesa, ou Princesa e Condessa, que no Séc. XIX escreveu um livro a que chamou Le Portugal à Vol d’ Oiseau – que na versão portuguesa se titulou de Portugal de Relance.
Não foi, porém, esse título que lhe deu o Camilo. Aconteceu que a dita Rattazzi, a certo passo do seu livro, escreveu que Camilo Castelo Branco “parece o condenado aos trabalhos públicos da literatura portuguesa: escreve, escreve, escreve sempre…” e que nos seus livros entram sempre “um brasileiro, uma menina que se mete num convento, um fidalgo provinciano e um namorado amorudo e transparente”.
O Camilo, naturalmente, não gostou e deu uma sova rotunda à Rattazzi. Traduziu-lhe o Portugal à Vol d’ Oiseau para Portugal a Voo de Pássara e comentou aquele passo que se transcreveu (todos os romances do Camilo terão um brasileiro, um namorado e uma menina em convento) dizendo que nenhuma das novelas de Camilo que a princesa citou tem brasileiro; mas “quanto a namorados são tantos que nem a senhora princesa é capaz de ter tido mais”.
(Convirá lembrar aqui que, naquele tempo, ter muitos namorados não enaltecia as meninas, muito menos as senhoras, para mais se princesas).
Pois no seu Portugal de relance escreveu Maria Rattazzi, nos fins do séc. XIX:
“A aplicação da lei em Portugal é rápida e inexorável para os pobres modificando-se sensivelmente quando se trata de burgueses abastados; e completamente, a ponto de não exercer o seu predomínio senão constrangida, sempre que se dirige a pessoas de elevada condição”.
Mais de cem anos depois, Inês Pedrosa escreveu que “Somos rápidos a julgar e a condenar um ladrão de mercearia ou um vigarista de esquina e lentíssimos a julgar os ladrões do erário público e os violadores da inocência do país, respaldados por advogados especialistas em fazer durar os processos até ao paraíso da prescrição”.
E Ferraz da Costa queixou-se em Agosto de que se rouba muito entre nós:”Rouba-se muito. E o país não tem dimensão para se roubar tanto”.
Também é esse o meu entendimento: de facto, Portugal é pequeno demais para sustentar tantos ladrões.
Contra o que alguns leitores desconfiados já estavam a pensar, esta crónica não tem nada que ver com os sucateiros deste país, nem foi determinada por atitudes do Dr. Armando Vara, formado de repente em não sei quê pela defunta Universidade Independente e Vice-Presidente do maior banco privado português, depois de ter sido Director e Administrador do maior banco nacional, a Caixa Geral de Depósitos, onde começara a carreira de banqueiro, no balcão de Mogadouro, uma vila de Trás-os-Montes que tem um restaurante de gritos: a Lareira, do sr. Eliseu Amaro, doutor laureado em gastronomia (que conto que me não cobre nada pelo próximo almoço – uma posta mirandesa com meruges (ou merugens) – quando eu lhe mostrar esta crónica em vez do cartão de débito).
Esta crónica visa dar-lhes, leitores, um sinal de esperança. Com ressalva das alusões ao Camilo e a Eliseu Amaro, fundou-se num artigo de Euclides Dâmaso Simões publicado na Revista do Ministério Público de Julho-Setembro, quando, portanto, o Sr. Godinho de Ovar andava ainda a acatramar as sucatas da Refer e das várias referes que há por aí, no seu patriótico afã de limpar este país de sucata, quer dizer, limpar de sucata este país.
E o autor daquele artigo é – repare-se – Procurador Geral Adjunto da República.
Sinal de esperança…
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