Praxes

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Por: José Niza

Praxes académicas: Quando, em 1949 – já lá vão uns anitos! – entrei como caloiro para o liceu de Santarém, fui recebido pelos veteranos com a terna autoridade dos brandos costumes: inocentes brincadeiras, pequenas malandrices e nada de humilhações ou violências.

Mas quando em 1956 fui estudar medicina para Coimbra, as praxes académicas humilhavam, ofendiam e violentavam. Entre outras sevícias havia as trupes, o rapar dos cabelos, o levar com uma colher de pau nas unhas e nos dedos. Sempre achei estas praxes uma estupidez, um abuso e uma violência dos mais velhos sobre os mais novos.

Do pôr do sol até ao nascer do dia os caloiros não podiam andar na rua. E, se a isso se aventurassem, arriscavam-se a ficar carecas. Lembro-me de uma vez em que fui ao cinema à noite e, lá  fora, uma trupe aguardava os caloiros desprevenidos. Para não ficar sem cabelo abriguei-me no cinema até ao raiar do sol.

Na minha República, a Baco, quando ascendi a Baco-Mor (o mais antigo da casa) acabei com as praxes. Uma das “brincadeiras” que antes lá se faziam aos caloiros era esta meiguice: o Higino Faria – que depois foi médico por estes ribatejos – era caçador. E, com a sua espingarda de calibre 12, apontava à caloirada e disparava. Só depois do gigantesco susto é que eles percebiam que os cartuchos eram de pólvora seca!

Há  tempos, na Escola Superior Agrária de Santarém, uma  caloira foi humilhada e conspurcada com fezes de animais. Tudo acabou em tribunal. E, ao que julgo, com uma justa condenação. O que, mesmo assim, não impediu que alguns docentes da instituição achassem naturais e pedagógicas as violências a que a rapariga tinha sido submetida.

Mais recentemente foi conhecido o que em matéria de praxes, tradições e maus costumes, se passava no Colégio Militar. Alunos agredidos pelos mais velhos. Castigos corporais. Públicas humilhações. Um aluno com um tímpano furado por um murro. O director do Colégio confessou que, só no ano lectivo de 2008, tinham sido aplicadas 600 punições!

Como é que tudo isto é possível no século XXI?!

Como é que “isto” ainda é aceite por uma significativa percentagem de pais que acham ser esta a melhor maneira de educar os seus filhos para a vida?

Como é que directores de escolas e professores pactuam com estas práticas e até em alguns casos as defendem e estimulam?

Praxes políticas: Mas há também as praxes partidárias. Muito em voga, sobretudo no PSD.

Como é sabido – e neste partido é tradição – os seus presidentes mudam com maior frequência do que os treinadores do Benfica. Uma vez eleitos, a todos acontece o mesmo: são transformados em “presidentes- caloiros”. E, sobre eles, começam a abater-se as praxes mais estapafúrdias e verrinosas: ainda não aqueceram o lugar e já lhes estão a fazer a cama.

Chega um qualquer Pacheco, barbudo e desgrenhado, e logo prediz que “aquilo” não tem ponta por onde se lhe pegue, e que ele é que sabe.

Chega o Marcelo e proclama que ele é que sabe, e que “aquilo” não tem ponta por onde se lhe pegue.

Chega o Santana – que ainda não percebeu que já não é Primeiro Ministro – e ameaça que vai andar à espreita.

Chega o Coelho, com pequenos passos, e avisa que ele é que vai ser, só não sabe é quando.

E chega, de Gaia, o Menezes aos gritos. E o Marques Mendes aos sussurros. E o João Jardim aos urros!

À caloira Manuela não deram descanso nem sossego: desde o momento inicial até ao dia dos exames, foi “praxada”. Não com bosta de boi, ou carecadas, mas com palavras, gritos, intrigas, traições, peixeiradas e protestos. Obrigaram-na a fazer comícios que ela não queria. Obrigaram-na a ir ao cabeleireiro todos os dias. E a aprender a sorrir para as televisões. Forçaram-na a aparecer nos cartazes a dizer “chegou a hora da verdade”. Mas a verdade que chegou não era a dela.

Agora querem pô-la de castigo. No quarto escuro onde já estão Nogueira, Mendes, Marcelo, Santana, Menezes, Relvas e Passos Coelho. Mas a cela está a ficar demasiado exígua para tanta gente. E o ar escasseia.

É a asfixia democrática.

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