“Pensar nas crianças hoje”
em destaque, twitter, Últimas Sexta-feira, Novembro 20th, 2009Após 20 anos sobre a Convenção dos Direitos da Criança, o jornal O Ribatejo entrevistou Eliseu Raimundo – Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Santarém.
Quais os objectivos desta iniciativa sobre a Convenção dos Direitos das Crianças?
A iniciativa surge no âmbito do aniversário dos 20 anos do dos direitos da criança. E o objectivo é mobilizar a população em geral para os direitos da criança, porque muita gente continua a desconhecer que existe uma convenção sobre os direitos da criança. Nós queremos de facto chamar a atenção das pessoas, do público em geral, para os direitos da criança, tendo por base alguns componentes, nomeadamente a promoção, protecção e a participação. Interessa-nos que estes direitos sejam vistos nestes três eixos. Para isso, lançamos a ideia, (a comissão de protecção e toda a sua parceria) de mobilizar as pessoas durante um ano, ou seja, não só num dia mas durante todo o ano lectivo, organizar actividades que possibilitassem este chamar de atenção para os direitos da criança.
Que tipos de actividade vamos ter ao longo do ano?
São actividades que mobilizam os pais. Temos um projecto que tem como título “Pelas crianças vamos conversar”, aqui vamos conversar com os pais, ou seja, queremos que os pais conversem entre si mas também que conversem com quem está um pouco mais por dentro das temáticas que vamos abordar. Neste sentido, contamos com o apoio do Instituto Politécnico e das associações de pais do concelho. Vamos iniciar este projecto em quatro localidades, Santarém, Tremês, Pernes e Alcanede. Vamos conversar pelas crianças. Esperamos que esta nossa iniciativa de conversar mobilize toda a população, pois é importante falar e reflectir sobre o que é educar, falar sobre situações que acontecem no dia a dia, como tratar a birra. Queremos falar sobre como reagir a situações habituais e que por vezes nem estamos despertos para elas, tanto na infância como na adolescência e pela vida fora. Mas queremos conversar, tendo por base a premissa da intervenção primária, intervindo o mais precocemente junto das crianças, junto das famílias e das comunidades, de maneira a melhorar a competência parental.
Depois teremos a ExpoCriança de 15 a 18 de Abril, que vai ter por tema a convenção dos direitos da criança e neste sentido vai também haver um seminário.
Um último momento será o Dia Mundial da Criança, onde será o culminar do encerramento desta iniciativa sobre os direitos da criança, no entanto queremos que nos próximos vinte anos se continue a comemorar todos os dias os direitos das crianças e que as pessoas sejam mobilizadas sobre esses mesmos direitos.
Em Santarém ainda há uma certa “desatenção” aos direitos das crianças?
Completamente, há muitos anos que a criança deixou de ser objecto de direito para ser sujeito de direito. Infelizmente está enraizado na nossa cultura que a criança é um objecto de direito. As coisas funcionam com base no não direito das crianças, os direitos destas passam a estar associado apenas aos direitos dos pais. Muitas vezes se diz que “quem dá o pão dá a criação” e nesta criação está o não direito à participação, as crianças não têm opinião não têm voz activa, são maltratadas e forçadas a determinado tipo de comportamentos e atitudes, muitas vezes trabalho infantil e prostituição. Ou seja, os direitos das crianças não estão devidamente acautelados, nem assegurados pela comunidade, e é isso que temos que assegurar, conseguir uma comunidade cidadã onde se eduque para os valores e apesar de todo o esforço, ainda não chegámos lá. Há que perceber que a criança não é o futuro, ela é o presente com todos os seus direitos e necessidades. Queremos a criança feliz Hoje, sendo que estas são o melhor que existe no país e na comunidade. O melhor no agora e não apenas no amanhã. Aqui temos que ir mais à comunidade.
Mas infelizmente ainda temos muitas crianças em casas de acolhimento….
Felizmente grandes passos e positivos têm sido dados nesse sentido. Estamos no bom caminho, onde as instituições conseguem dar às crianças um melhor projecto de vida. Era bom que não tivéssemos crianças institucionalizadas e ninguém determina a institucionalização de uma criança de animo leve, quando se faz é porque se ponderou em termos de risco o que era melhor para a criança naquele momento, mas não há duvida que o melhor era a criança viver na sua casa, junto da sua família ainda que com uma medida de apoio familiar. Até porque quando a criança é retirada, demora muito a voltar para sua casa, a justiça é assim e por vezes pensamos que a criança vai estar institucionalizada um ou dois meses e fica lá três ou mais anos, e isso é muito tempo para uma criança. Não conseguimos ainda aligeirar os tempos das medidas aos tempos das crianças.
Neste sentido, a educação parental é importante?
Essa é uma grande preocupação a nível nacional, não é só nossa. Aqui, a nível local há um projecto de incentivo, neste momento estamos a trabalhar com cerca de 20 famílias de três em três meses, onde trabalhamos questões ligadas com a educação parental.
Que conselhos pode dar às famílias nesta altura?
Há que gostar, pensar na família, nos filhos, dialogar. Pensar sempre na criança, quando os pais estão juntos, separados. Há que pensar sempre na criança!
Temos que criar uma sociedade de afectos. Às vezes, nesta nossa labuta diária, esquecemos os afectos e não há comunidade feliz sem afecto, sem respeito. Há que viver rodeado de afecto, é claro que zangas existem, mas devem ser canalizadas.
Aos pais dois conselhos, se me é permitido fazê-lo: brinquem pelo menos 10 minutos com os seus filhos e dêem-lhes pelo menos um beijo por dia.
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