Os cêntimos da formação
Opiniões online Quinta-feira, Novembro 5th, 2009
Por: Florinda Matos - investigadora MRC/ISCTE e consultora PMEConsult
Na sociedade actual é comum falar-se em formação orientada para a produtividade, a qual está ligada à produção de mão-de-obra qualificada e à empregabilidade.
A nível europeu, a Estratégia de Lisboa confirmou o papel central da educação e da formação na agenda da União Europeia para o crescimento e o emprego. As orientações integradas instam os Estados-membros a alargar e melhorar o investimento no “capital humano” e a adaptar os sistemas de educação e de formação às novas exigências em matéria de competências.
Como é do conhecimento geral, em Portugal, verifica-se um elevado défice de habilitações e de qualificações da população empregada.
Nos últimos anos têm sido lançados vários programas de incentivo e apoio à formação profissional empresarial, destacando-se, entre estes, o POPH (Programa Operacional Potencial Humano).
Embora os objectivos do POPH visem suprir o défice estrutural de qualificações da população portuguesa, portanto uma área chave num dos pontos mais críticos da nossa economia, verifica-se que este programa não está a ser devidamente aproveitado por uma boa parte das nossas empresas.
Os motivos são vários e vão desde o desconhecimento do programa, à noção de excesso de burocracia que lhe está associada ou mesmo à ideia de que a formação é um elemento secundário no desenvolvimento do processo organizacional.
Na verdade, muitas empresas portuguesas, estão, mais uma vez, a desperdiçar uma oportunidade de melhorarem as competências dos seus trabalhadores.
Por outro lado, na operacionalização da sua política de formação, muitas empresas optam por enviar os seus trabalhadores para uns quantos cursos e acções soltas, desenquadradas das reais necessidades de formação. Estas acções, muitas vezes, servem apenas para cumprir obrigações legais ou planos de formação, definidos de forma desintegrada do contexto organizacional.
E, embora se pudesse supor que esta situação é exclusiva das pequenas e micro – empresas, na verdade, ela é frequente nas médias e mesmo nas grandes empresas. Ao mesmo tempo é frequente que os critérios de escolha de formação se centrem, quase exclusivamente, no preço, deixando para segundo plano os critérios de qualidade ou de resultados esperados.
Nestas situações, a formação não desencadeia transferência de conhecimentos adquiridos para o contexto de trabalho, porque os conhecimentos adquiridos não correspondem às necessidades do posto de trabalho. Entra-se assim num ciclo vicioso negativo, em que empresários e trabalhadores desvalorizam a formação porque os resultados não são visíveis, por isso investe-se pouco e mal.
Quer se trate de grandes ou de micro – empresas a formação deve estar integrada numa estratégia global de desenvolvimento da empresa, deve corresponder a planos e a programas, enquadrados num orçamento equilibrado e realista, supervisionado por uma avaliação.
Ou seja, não são os orçamentos de “cêntimos” ou de “milhões” que fazem a diferença, deve-se procurar que o investimento que se faz em formação seja o adequado às necessidades da empresa, sendo este avaliado em função dos resultados obtidos.
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