O pântano
Opiniões online Segunda-feira, Novembro 9th, 2009
Por: Joaquim Duarte Editorial do jornal O Ribatejo de 6Nov.
“A mais recente operação da Judiciária tem o irónico nome de “face oculta” e trouxe à ribalta nomes de gente poderosa envolvida em esquemas de corrupção e tráfico de influências.
A primeira cabeça a rolar foi a do trampolinista Armando Vara, arvorado em banqueiro e agora obrigado a suspender o principesco cargo de vice-presidente do BCP. Não se sabe quanto tempo mais resistirá o seu colega José Penedos, outro ex-governante socialista, ainda à frente da REN. Quinze arguidos confirmados até ao momento. Apenas um preso, o sucateiro José Godinho, proprietário da já célebre empresa de tratamento de resíduos e sucata O2. Um negócio montado numa tentacular rede de podridão que espalhou “lixo” pela Refer, PT e Galp, entre outras grandes marcas nacionais, comprando ou aliciando quadros dirigentes destas empresas. Foi este castelo de corrupção que a operação “face oculta” desmoronou e que agora enche as manchetes dos jornais.
Sobre estes malfeitores de colarinho branco, que medram na traficância e no roubo, disse o dirigente empresarial Ferraz da Costa, ainda não há muito tempo, que “o nosso país é demasiado pequeno para tanta corrupção”. Falava com conhecimento de causa, das grandes negociatas feitas à pala do erário público, neste nosso país onde o Estado consome mais de 50% do PIB, mas também dos escândalos financeiros que então envolviam nomes como o de Jardim Gonçalves, João Rendeiro, Oliveira e Costa (outro preso) ou Dias Loureiro, cujos processos continuam a correr na justiça. E todos sabemos como é demorada e tantas vezes ineficaz, ao ponte de nos soar quase a pilhéria ouvir os dirigentes políticos reclamarem a celeridade da justiça.
São já demasiados os escândalos de corrupção e tráfico de influências em que o crónico centrão político surge sistematicamente envolvido. Só isso pode explicar a falta de uma vontade política séria – lembremo-nos da recusa socialista em aprovar a lei Cravinho – no combate a este perigoso fenómeno que prejudica gravemente a economia nacional e debilita o regime democrático.
A Nação precisa indignar-se com estes malandros engravatados e empertigados que a sugam, fingindo servi-la, nos vários tronos do poder. Solenes figurões de belos discursos e maus costumes, que nomeiam parentes e apadrinhados para lugares públicos e os ensinam a declinar o verbo roubar à mesa do orçamento.
Felizmente que os jornais continuam a cumprir a sua função de denúncia destes escândalos de corrupção e traficância, contribuindo para a moralização da vida pública.”
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