
Por: José Niza
1. “O sol, quando nasce, é para todos”. Mas a electricidade não.
Há dias vi na RTP uma reportagem feita no Alentejo, num Alentejo interior e profundo, onde quase já não existem Portugueses. Os que estão, são gente que trabalha a terra, que pastoreia rebanhos e varas de porcos pretos, que ali foi semeada e ali cresceu entre espigas de trigo, sobreiros e oliveiras. São poucos. Mas são gente. Gente como nós. Os nomes deles só existem nos cadernos oficiais. Para votar. Para pagar impostos. E quando nascem. Ou quando morrem.
Nos cadernos da EDP é que eles não existem. Nunca existiram. Nem existirão. Vivem entre o sol do dia e a longa escuridão das noites. A EDP não lhes leva a electricidade aos montes, nem às casas, porque não é negócio. Eles gostavam de ter um pouco de televisão, de ver a luz a sair das lâmpadas, de ter uma bomba para tirar água do poço. Mas não. A EDP não existe para essas coisas, só existe para – cada vez mais– ter lucros astronómicos e distribuir chorudos dividendos aos seus accionistas. É só para isto que ela existe.
Outra tímida notícia, esta de um jornal – e do mesmo dia – anunciava que 13% da energia que hoje se consome em Portugal é fruto do bater dos ventos no alto das serras. Aqueles moínhos de hélices brancas estão a produzir cada vez mais energia eléctrica. Para os próximos quatro anos está previsto um aumento de 65% em relação à produção actual. E assim Portugal se vai libertando da dependência do petróleo e da sangria dos petrodólares que representam uma terça parte do valor das nossas importações. Coisas como esta são demasiado importantes para merecerem honras de telejornal ou de primeiras páginas. O que verdadeiramente lhes importa são as lamúrias dos velhos do Restelo e as pragas dos profetas da desgraça. Que país este!
2. Acompanhei, perplexo, o debate sobre o programa do Governo. Fui deputado muitos anos, participei em inúmeros debates deste género, mas nunca tinha visto coisa como esta.
Primeiro porque, afinal, quem ganhou as eleições foram os partidos da oposição. Todos. Sem excepção. Porquê? – Porque o objectivo de retirar a maioria absoluta ao PS foi por todos atingido. Para quê? – Obviamente para que Sócrates passe a governar, às 2ªs feiras com o programa do PSD, às 3ªs com o do Bloco, às 4ªs com o do CDS, às 5ªs com o do PCP e às 6ªs feiras (de manhã) com o dos Verdes.
E eu a pensar que quem ganhava as eleições é que tinha direito a governar…
A segunda perplexidade foi a de que toda a oposição em peso substituiu o necessário debate do programa do Governo pela exigência histérico-dramática da não avaliação dos professores. Isto depois de 48 mil deles já terem sido avaliados. E, ao que ouvi dizer, até com boas classificações. Alguém já perguntou a estes professores se querem mesmo deitar as suas avaliações para o lixo?
3. O Presidente Cavaco Silva deu um monumental trambolhão. Mas não fracturou nada. Tratou-se apenas de uma sondagem do Expresso em que, num único mês, perdeu 27,5% da popularidade que tinha e atingiu o nível mais baixo de todas as presidências dos últimos trinta anos. Dizem os analistas que esta abrupta queda foi consequência da inventona das escutas que nunca existiram (a não ser na presidencial cabeça). Como os Portugueses não andam a dormir, não gostaram que o seu Presidente andasse a fazer malfeitorias ao Governo. E os resultados estão à vista.












