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A cultura do novo capitalismo

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Por: Beja Santos

Apercebi-me da real importância do pensamento de Richard Sennett quando li a sua obra traduzida em português “A Corrosão do Carácter – as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” (Terramar, 2001). Abreviadamente, o sociólogo norte-americano desmonta neste ensaio a flexibilidade do trabalho e o seu impacto no carácter pessoal dos trabalhadores. No “novo capitalismo”, emergente na transição do século XX para o século XXI troca-se mais frequentemente de emprego e há menos burocracia que no passado. Deixou-se de falar no longo prazo e os empregos estão a ser substituídos por projectos. O “velho capitalismo” tinha vários controlos que perderam sentido ou peso: sindicatos fortes, garantias sociais do Estado Providência e as grandes empresas mediam o seu êxito pela relativa estabilidade que davam aos seus trabalhadores. Sennett pergunta como é que se podem prosseguir valores de longo prazo numa sociedade tiranizada pelo curto prazo. Reflectindo sobre o sistema industrial, recorda-nos que o fordismo baseava-se em três princípios: a lógica do tamanho (quanto maior mais eficiente), a lógica do tempo métrico (a gestão da fábrica sabia exactamente o que cada um dos operários fazia exactamente num determinado momento) e a lógica da hierarquia (a super-estrutura que organizava e dirigia a produção retirava das oficinas toda a possível criação). Agora, a nova linguagem da flexibilidade pressupõe que a rotina esteja a morrer nos sectores dinâmicos da economia.

Com a flexibilidade, reinventam-se as instituições, especializa-se a produção e dá-se a concentração do poder sem centralização. “Reengenharia” significa “fazer mais com menos”. Com esta especialização flexível procura-se colocar no mercado os mais variados produtos sempre cada vez mais depressa. A velha linha de montagem foi substituída por ilhas de produção especializada. No “novo capitalismo” a flexibilidade passou a ser igual a juventude. Os que mandam no reino do flexível vivem confortavelmente na desordem empresarial mas receiam a confrontação organizada. Sennett advertia neste seu livro: “Um regime que não dá aos seres humanos razões profundas para cuidarem uns dos outros não pode manter por muito tempo a sua legitimidade”.

Em “A Cultura do Novo Capitalismo” (Relógio D’Água Editores, 2006) Sennett, continua a analisar as metamorfoses do capitalismo a partir da evolução das instituições, das competências e das formas de consumo relativamente às aspirações libertárias dos anos 60. O resultado não é menos brilhante e sugere a leitura obrigatória. Segue-se uma síntese das suas ideias acerca do que é a cultura do novo capitalismo.

O trabalhador actual está submetido a desafios: gerir relações a curto prazo, passando incessantemente de uma tarefa ou de um emprego para outro; a cultura moderna menoriza as novas competências, submetendo-as a um stress tal que deixa claro que a meritocracia das revoluções francesa e norte-americana é um assunto intocável do passado, tendo sido substituída pelo valor do dinheiro e pelo afã de chegar ao topo da pirâmide social. A nova ordem do poder gerou uma cultura muito superficial que está a provocar muitas frustrações (na empresa, na família, nas relações entre os indivíduos).

O capitalismo social está na génese do fordismo, da organização burocrática das sociedades industriais e gerou os valores e princípios que deram forma à sociedade de consumo. Trata-se de uma cadeia de comando com funções determinadas, gerando solidariedade no seio da própria organização. O Estado Providência tornou-se no pilar da estabilidade, contribuindo para a exaltação do tempo organizado, para a motivação do trabalhador ficar muito tempo na empresa, gerando nele convicções de grande utilidade e sentido da carreira.

A partir dos anos 80 do século XX deu-se uma viragem no capitalismo. Primeiro, o poder transferiu-se para os accionistas que passaram a dar ordens ao director executivo. Segundo, a banca internacionalizou-se graças ao afundamento do sistema de Bretton Woods, passando os bancos a gerir fundos de pensões, comprando empresas, media e comunicação, em estreita articulação com os capitães da indústria. Terceiro, emergiram as novas tecnologias de comunicação e fabrico que ao lado da automação tornaram possível a desnatação das hierarquias, consagrando o trabalho de curto prazo, a gestão por objectivos em substituição do comando piramidal. Assim se consagrou a organização flexível.  

Na organização flexível o poder está discretamente concentrado numa área de decisão que fixa as tarefas, julga os resultados, expande ou emagrece a empresa. Esta esforça-se por motivar a autonomia fixando as condições de competição entre equipas da mesma empresa, pondo termo às doutrinas de Taylor (a partir de agora o importante é produzir o melhor resultado e o mais rápido possível). Nasceu assim o novo stress laboral. Este novo capitalismo promove desigualdades que já nem levantam grandes clamores de protesto: é o caso das indemnizações principescas aos dirigentes que são afastados depois das fusões e concentrações. Nasceram deste modo três défices sociais: fraca lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do saber institucional. Para quem comanda a empresa passou a ser um assunto delicado a construção de um sentimento de inclusão social que assente na identidade do trabalho. Com a hiper-qualificação e a infra-desqualificação o leque salarial tornou-se abismal. Os “McJobs” pululam, evidenciado que o capitalismo social está a ser enterrado.

   A questão do consumo passou a centrar-se numa dicotomia: ou escolher com base em opções responsáveis ou aderir entusiasticamente ao “bom, bonito e barato”. As políticas liberais, para que as economias não estagnem, apoiam a segunda hipótese. Aliás, o modelo concorrencial é todo montado não para a cidadania mas para o consumo baratinho: passagens aéreas a 50€; férias em dormitórios exóticos a 500€; imitação de comida fina a escassos euros, mesmo que seja sensaborona; a promessa permanente de consumir mais medicamentos, mais cosméticos, mais alimentos disfarçados de medicamentos… É evidente que o sistema gera as suas apoplexias, com gente doente, obesa, crianças irritadas, pais inquietos com as consequências dos jogos de vídeo, etc. O gigante Wal-Mart é um dos exemplos paradigmáticos da busca pelo “bom, bonito e barato”. É uma empresa assente numa produtividade com gestão inovadora contínua, sem qualquer respeito pelos direitos sociais dos seus trabalhadores mas que pratica preços muito simpáticos para os seus consumidores. As comunicações comerciais servem para refinar a paixão devoradora, misturando o compromisso entre o sistema financeiro, o económico e o da comunicação. O mercado das notícias é cada vez publi-reportagem e publi-informação. Com o esfarelamento das classes médias, as normas estatutárias têm que ser sabiamente iludidas. A marca deve ser sugerida como mais importante que o objecto em si. Quer a Volskwagen quer a Ford, escreve Sennett, produzem diversas versões de um automóvel mundial- uma plataforma de base formada pelo chassis, pelo motor e certas partes de carroçaria e depois introduzem certas diferenças superficiais. A Volskwagen tem que convencer os seus consumidores que há diferenças substanciais entre o modesto Skoda e um Audi topo de gama (que, no fundo, têm 90% de semelhanças). Por alguma razão, somos hoje uma sociedade que paga muito bem aos manipuladores de signos. A aceleração técnica e as séries curtas permitem a participação do consumidor na amplificação das diferenças. Acresce que o consumidor vive iludido e satisfeito com os objectos que ele considera personalizados. É o caso da viatura, onde ele pode optar por várias dezenas de escolhas no concessionário. Num mundo apressado, a potência dos objectos é uma das bandeiras principais do marketing: mais rotações, mais músicas acumuladas, mais nitidez na imagem, som mais fiel… e andamos permanentemente a trocar de objectos para termos a máquina mais perfeita e ultrarápida.

Olhando à nossa volta, o campo do consumo é teatral já que o vendedor, tal como o dramaturgo, deve inspirar a suspensão voluntária de qualquer incredulidade, levando o consumidor a comprar. Somos por isso espectadores-consumidores.

Vivemos no mundo ocidental governados por plataformas políticas “centristas” que confiam no desenvolvimento económico orientado para a globalização, onde prevalece a meritodemocracia dos que triunfam nos negócios. Ao contrário da sociedade de consumo dos anos 50 do século passado, o poder e a autoridade separaram-se, e agora a responsabilidade recai nos próprios cidadãos. Enquanto isto se passa, os consumidores vivem permanentemente convidados a mergulhar na cultura da superficialidade: a escolher mais barato, a considerar que a competitividade dos mercados é mola real dos problemas sociais e que devorar objectos é um talento que assiste aos consumidores tecnicamente bem informados (é esta a proposta das associações de consumidores que continuam agarradas ao modelo consumista das políticas liberais.

O futuro do consumo e dos consumidores vai jogar-se num modelo de solidariedade e de responsabilização que o capitalismo social anda a prometer sem realizar: serviços de interesse geral, garantia de um rendimento de base, inclusão no consumo, apoios às actividades úteis das comunidades dedicadas ao bem comum.

As teses de Richard Sennett não podem ser ignoradas, comportam explicações (necessariamente discutíveis) sobre o que é hoje ser trabalhador-consumidor. O capitalismo global sabe que há limites à redução ou contenção do consumo de massas. Quem trabalha, quem produz é igualmente quem consome: a sociedade de consumo, depois de políticas sociais dos anos 50 aos anos 70, deixou-se dominar por novas desigualdades; a vida das empresas já não obedece a critérios militaristas, ser flexível é estar totalmente aberto à precariedade e precarização, a flexibilidade é sinónimo de trabalho temporário ou despedimento a qualquer momento; já não se pode ser leal com uma empresa que não respeitas as nossas competências e que desaproveita os nossos talentos; a cultura da empresa já não se mede pela solidariedade mas pelos resultados a curto prazo; no novo capitalismo arriscamos permanentemente à inutilidade, qualquer novo sistema informático pode ameaçar as nossas tarefas; o compromisso pessoal do trabalhador na empresa prossegue debilitado já que o indivíduo está submetido a fortíssimas pressões. Ninguém desconhece que hoje há empresas que só contratam trabalhadores que aceitem ter o telemóvel permanentemente ligado. Este tipo de relações gerou um comportamento de consumidor que nada tem a ver com as referências do século XX: consumo é puro prazer, nunca está ligado à cidadania; o que o consumidor quer são artigos a baixo preço, indiferente às condições de quem os produziu; nunca como hoje se esteve tão marcado pela marca nos bens que consideramos prestigiantes, nunca como hoje se podem adquirir bens que oferecem naturalmente mais de que uma pessoa irá utilizar (o iPod é o princípio dessa lógica demencial).

Richard Sennett considera que a nova ordem do poder assenta numa cultura cada vez mais superficial. Não se poderá viver eternamente em cultura debilitada, em que tudo é frágil. Poderá muito bem acontecer que a nossa próxima página nova seja o motim contra esta cultura debilitada.

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Publicado por on Nov 21 2009. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

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