A Bíblia e o clima organizacional
Notícias do leitor Segunda-feira, Novembro 2nd, 2009
Solicitados, numa de nossas palestras, a sugerir a leitura de um livro especial na abordagem de conceitos e práticas sobre clima organizacional, indicamos a Bíblia – o que causou uma certa estranheza – pela equivocada percepção da abrangência, e da profundidade, desse best-seller cristão – um legítimo manual de qualidade da vida.
Visão, missão, valores, princípios, normas de procedimento e metas, elementos que ganharam status organizacional no século XX, constam nas Escrituras de forma explícita.
Uma das primeiras referências encontra-se na construção da Arca de Noé. A ordem de serviço veio com todas as especificações técnicas: “Faz uma arca de tábuas de cipreste; nela farás compartimentos e a calafetarás com betume por dentro e por fora. Deste modo a farás: de trezentos côvados será o comprimento; de cinquenta, largura; e a altura, de trinta. Farás ao seu redor uma abertura de um côvado de altura; a porta da arca colocarás lateralmente; farás pavimentos na arca: um em baixo, um segundo e um terceiro” (Gênesis 6: 14 a 16).
Hoje, produtos e serviços são desenvolvidos obedecendo a normas técnicas internacionais, cujos certificados são verdadeiros passaportes para a inserção das empresas nos negócios globalizados. Entre as habilidades gestoras de Noé destaca-se a sua capacidade de planeamento organizacional, disciplina táctica no cumprimento do cronograma, “ouvido de mercador” frente às provocações dos incrédulos e aguçada percepção no aproveitamento das características individuais de cada um dos seus colaboradores. Formou uma equipa, motivou-a, alocou recursos, estabeleceu processos operacionais, distribuiu tarefas, informou do prazo e geriu o andamento do projecto. Noé não foi apóstolo da burocracia.
Outro personagem histórico da Bíblia é José do Egipto – administrador admirável, (Gênesis 41: 37 a 45) que pode ser comparado com o CEO (Chief Executive Officer) de hoje. Notabilizou-se, principalmente, pela administração do país nos períodos “das sete vacas gordas e das sete vacas magras” – interpretados como anos de fartura e de escassez. Em termos de relacionamento inter-pessoal, a vida de José é uma das mais comoventes e atraentes da história.
As vagarosas e silenciosas passadas de Moisés pelo deserto colocaram-no na galeria dos protagonistas que agregam valores à gestão de recursos humanos. Dentre os seus desafios destaca-se a complexidade no atendimento das necessidades dos milhares de judeus que liderava a caminho da Terra Prometida. A solução do problema partiu de seu sogro, Jetro, quando lhe disse: “E tu, dentre todo povo, procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinquenta e maiorais de dez; para que julguem este povo em todo tempo, e seja que todo negócio pequeno eles o julguem: assim a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo” (Êxodo, 18: 13 a 26). Nascia, assim, uma metodologia de descentralização do poder – o “calcanhar-de-aquiles” das actividades humanas. Reagimos como democratas, mas agimos como autocratas.
Esta é a mais devastadora das causas de desmotivação de funcionários e do desaparecimento prematuro de promissoras lideranças. Questionar as ideias, não as pessoas é a mais eficaz das estratégias para manter a indispensável “oxigenação”.
Se lêssemos, reflectíssemos e vivenciássemos, com maior frequência, os ensinamentos contidos na Bíblia seríamos muito mais felizes e, provavelmente, muito mais prósperos.
Faustino Vicente
Advogado, Professor, Consultor de Empresas
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Prof. Faustino, não tenho dúvida de que a riqueza do seu texto esta na recomendação da leitura da Biblia, com a visão do contexto diario de cada um de nos e não necessariamente sob o aspecto teológico. Acredito existam outras passagens que nos permitem relacionar o clima das organizações com os escritos da biblia, mas entendo ser necessário uma abertura nas pessoas para um novo processo de leitura do documento.Parabéns pela abordagem.