Qimonda e a “Cidade do Conhecimento” no Cartaxo
Notícias do leitor Segunda-feira, Outubro 19th, 2009
Quem percorre o país, seja por obrigação profissional ou lazer, encontra, maioritariamente à beira do caminho espaços reservados para centros de negócios, ninhos de empresas, centros tecnológicos ou centros polivalentes.
O Ribatejo para não fugir à regra também começa a desenvolver os seus.
Um exemplo flagrante de tais centros é a QUIMONDA, sobre ela já escrevi e de há muito antecipei o seu fim.
Sei que na maioria das vezes há a melhor intenção por parte das forças locais, elas querem um melhor futuro para os seus, querem sobretudo que localmente haja condições para que as suas populações se fixem de forma sustentada e criem a riqueza tão necessária ao seu desenvolvimento.
Mas quando a esmola é grande o santo deve desconfiar.
Sou um tecnólogo por formação, 40 anos integrado no maior produtor Europeu de alta tecnologia e numero dois mundial, tenho da tecnologia uma visão global, única forma dela não se converter no domínio segmentado de horizontes no tempo, espaço ou resultados. Como triste recordação, fica-me a de ter assistido e contribuído para a evolução desse produtor estando lá dentro e depois já cá fora assistir ao seu desmoronamento. Por solidariedade fui nessa e noutras alturas depois disso visitar antigos colegas, vi uma cidade outrora viva, dinâmica, rica e de progresso transformada em ruas desertas, pessoas fechadas em casa a muita apreensão e tristeza. Técnicos e cientistas a tentar refazer as suas vidas na Austrália, Canadá ou Estados Unidos, alguns preparando-se para encetar novas carreiras totalmente desligadas das que até ai tinham seguido, esses no meio de tudo os menos infelizes, a sua preparação permitia-lhes abarcar outras valências, não tinham de esperar por um emprego numa fábrica de circuitos integrados ou televisores, a matéria cinzenta era o seu colete salva-vidas.
A QUIMONDA foi um sucesso financeiro para os seus promotores, podemos dar-lhe o beneficio da duvida e acreditar que a sua real intenção era criar um complexo fabril duradouro, dinamizador de potencialidades locais e emprego próspero a uma população trabalhadora, mas o resultado prático é bem diferente.
Uns quantos, poucos, ganharam muitos milhões, a maioria criou falsas expectativas, hipotecou anos da sua juventude e encontra-se agora em desespero.
Em Portugal infelizmente também temos alguns desses exemplos, antes, depois do 25 de Abril e agora. Tantos nomes que se poderiam citar.
Não chega um nome sonante, um banco de suporte, o facto de estar ligado a uma instituição estrangeira e boas intenções, a tecnologia é de hoje, não do futuro. Qual a fábrica a construir hoje para produzir os bens tecnológicos a lançar no mercado em 2011? Circuitos integrados para competir hoje com a Ásia e na próxima década com África? Discos rígidos porque as produções nos países emergentes não vão ser expandias pois vem aí o Solid State Disk? Ou unidades herméticas para frigoríficos agora que as células Peltier crescem em eficiência e baixam em preço?
Portugal é um país de mão-de-obra cara, pouco eficiente, indisciplinada e sobretudo politizada, os últimos episódios da Auto Europa são disso flagrante exemplo. A atitude dos governos, dos sindicatos e de algum patronato em nada têm contribuído para inverter a solução. Antes dos centros de negócios temos de descobrir o que iremos negociar, antes dos centros tecnológicos teremos de saber qual e a que nível eles se vão dedicar –electrónica, chips, mecânica, robótica, máquinas ferramenta, tecnologias da informação, produção industrial comunicações, nano tecnologia, engenharia médica ou hospitalar, CAD, CAM, aeronáutica …. e depois a que nível –investigação de base sob contracto, parcerias com universidades ou institutos, aplicação, produção assistida, produtos para energias renováveis ou transportes, …
O ditado é português e antigo, há mais de 45 anos eu fui confrontado com ele, mas ganhei. “Quem pensa não casa, quem casa não pensa”
Curiosamente, também a empresa que referi pensava de maneira global, mas nesse aspecto com muito mérito, construiu milhares de casas para os seus trabalhadores, depois eles foram pagando com o fruto do seu trabalho.
Para bem começar esperemos que também assim seja no Cartaxo com a “Cidade do Conhecimento”.
Rui Figueiredo
(Lisboa)
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