PS/Santarém – é preciso dar lugar aos novos
Opiniões online Sexta-feira, Outubro 23rd, 2009
Por: José Niza
“O problema do PS em Santarém não se chama Moita Flores. Em Santarém, o problema do PS, chama-se PS.
Aliás, os socialistas scalabitanos até deviam agradecer a Moita Flores o tsunami eleitoral que ele desencadeou. Sem esse estremeção o PS continuaria em hibernação, alimentando-se de mediocridade, de equívocos, de ilusões, e vivendo à sombra de Sócrates. Mas, como bateu no fundo, existe a esperança certa de que, daqui para a frente, só pode ser melhor.
Como é que, depois de trinta anos de hegemonia autárquica, o PS chegou ao ponto a que chegou?
Existem várias respostas para esta questão:
A primeira – que vem nos livros – é que, em democracia, não há lugares cativos nem eternos.
A segunda é que, mesmo jogando mal, se o adversário ainda for pior, a vitória está sempre garantida.
A terceira é que todo o património da obra feita se pode perder no campo dos conflitos e no jogo das intrigas e das guerras pessoais.
Finalmente a quarta é que, perante o caos, se surgir uma janela de credibilidade e de esperança, os eleitores vão lá espreitar e experimentar para ver como é.
Olhando pelo retrovisor da história recente do socialismo autárquico em Santarém, as causas da actual implosão já vêm de há dez anos.
Em 1999 – era eu então presidente da Assembleia Municipal – assisti impotente ao começo da derrocada que minou o executivo municipal, quando José Miguel Noras (JMN) decidiu retirar os pelouros aos vereadores Rui Barreiro e Raul Violante. Daí para a frente instaurou-se uma situação conflitual sem tréguas que dividiu o partido e comprometeu e enfraqueceu a acção da Câmara.
Com vista a futuros ajustes de contas, a reacção dos ofendidos foi a tomada do poder na Comissão Política Concelhia. E, dois anos depois, os vencidos de antes arredaram da ribalta os vencedores: JMN, após duas maiorias absolutas, foi afastado do poder. Mas não totalmente. Porque, apesar de tudo – e por cedência minha a um pedido de Almeida Santos e Jorge Coelho – conseguiu ainda ser eleito presidente da Assembleia Municipal. Também Rui Barreiro conseguiu ganhar a Câmara, embora com uma maioria escassa. Ao longo de quatro anos a guerrilha pessoal e institucional entre os dois presidentes – aliás mais do que previsível – atingiu momentos inqualificáveis. Tudo isso fragilizou o PS de forma irreversível: o tempo socialista estava no fim e a paciência dos eleitores estava a esgotar-se. Foi então que surgiu um extraterrestre chamado Moita Flores, que tudo baralhou, e que habilmente soube aproveitar todas as fraquezas do PS e a vontade de mudança do eleitorado. Daqui para a frente a história é conhecida.
Para grandes males, grandes remédios. É chegado o momento de os mais velhos assumirem – perante si próprios e perante o partido – a responsabilidade da situação criada.
É chegada a hora de os mais velhos se despirem da sua preguiça e estéril auto-suficiência, das suas “certezas”, e passarem o testemunho aos jovens. E confiarem neles.
É chegada a altura de reabrir as portas e as janelas da sede do PS para que possam entrar o oxigénio e os militantes.
É chegado o imperativo da palavra, do debate, do exercício democrático das opiniões, do direito à participação.
É chegado o tempo de o PS de Santarém se assumir de novo como partido político e não apenas como um comité autárquico.
É chegado o momento de o PS, na oposição, recusar o “bota-abaixismo” e eleger a crítica construtiva como contributo para o município. E também de ter a humildade de saber perder para mais tarde aprender a saber ganhar.
Finalmente, é chegada a hora de responder à chamada, de o PS saber com quem é que pode contar, e quem é que está disponível para uma longa e necessária cura de oposição.
Porque não há outro caminho. E porque não há outro futuro.”
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