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O discurso Da discórdia

 

 CavacoSilva

Por: Editorial Jornal O Ribatejo

Dois dias depois das eleições que mudaram o panorama político do País – com o fim de um governo de maioria absoluta –, o Presidente da República consegue a proeza de se estatelar politicamente ao comprido. A sua aguardada intervenção, que se confiava fosse esclarecedora e definitiva sobre o alegado caso das escutas a Belém, redundou, afinal, num discurso pífio e sobretudo desonroso para o próprio cargo que ocupa.

Foi o discurso de um homem acossado, o do Presidente da República. Um homem que se deixou embrulhar no seu próprio tabu de silêncio, e que permitiu que o tempo e a circunstância política o enredassem numa disputa eleitoral por sua própria culpa, por não ter esclarecido as notícias que o envolviam em graves acusações ao governo em tempo útil. Uma palavra oportuna em Agosto, após a manchete das escutas no “Público”, tinha arrumado tudo.

Agora, tudo lhe caiu em cima, por se permitir adiar até ao limite do impossível os esclarecimentos que o país lhe exigia. E quando decidiu falar, a montanha acabou por um rato. E foi um rato acossado o que saiu da toca.

Cavaco Silva conseguiu fazer um discurso em três andamentos, e saiu-se mal nos três momentos: como Presidente da República, foi o desastre institucional; como comentador político, foi do mais fraquinho que já vimos em televisão; e como cidadão, só não foi assustador nas suas suspeitas porque elas são simplesmente grotescas.

Sobretudo, em nenhum destes três papéis que desempenhou nos dez minutos de antena foi convincente nem coerente.

Foi mais o que insinuou do que o que afirmou. Cavaco Silva, o apregoado estabilizador político, tornou-se o desestabilizador. Confessou-nos, a todos nós, que não gosta do “Partido do Governo” – a expressão está escrita no seu discurso – pelo que se supõe também não gostar nada de José Sócrates, que guarda em si a dupla função de presidente do PS e de chefe do governo.

Não será o único, mas deixar perceber-lhe assim a manha política e a amofinação que lhe vai na alma, não cai bem a um chefe de Estado. Que ainda por cima vai ter de empossar dentro de dias novo governo socialista, com o mesmo primeiro-ministro José Sócrates.

Há algo de grave, mas também de irreal neste quezilento folhetim entre a Presidência da República e o Governo socialista. Mais parece assunto de alcoviteiras vicentinas, ou de comadres desavindas, com a mais velha a querer correr com a mais nova à vassourada. E a rua a ver no que é que isto vai dar. Se não estivéssemos a falar das mais altas instituições da nação, até que seria uma comédia gostosa para os Gato Fedorento.

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Publicado por on Out 8 2009. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

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