Nos 99 anos da República

Jose Niza_2009

Por: José Niza

   Nos primeiros anos que se seguiram ao 25 de Abril a Assembleia da República não tinha restaurante, nem sequer um refeitório. Por isso muitas vezes ia almoçar com Salgado Zenha e Raul Rego à Varina da Madragoa.

     Salgado Zenha era muito frugal. Mas o trasmontano Rego batia-se bravamente com uns cozidos à portuguesa, bem regados com tintos do Douro. Era nesses almoços que ele abria o livro da história da República. De tudo ele sabia. De tudo ele ensinava. E eu, ouvia-o, atento e fascinado.

     Um dia disse-lhe: “Ó Rego, você tem que escrever isso! Tem que escrever!”

     E ele respondeu-me: “Ó Niza, todos os dias tenho de fazer artigos para os jornais, não tenho tempo.”

     Mas eu insisti: “Ao menos dite para um gravador, conte essas histórias. Depois alguém as passará ao papel.” E até me ofereci para o fazer.

     Passou algum tempo, eu saí da Assembleia para a RTP, e não voltámos a falar nisto.

     Até que um dia, em 1986, o Círculo de Leitores deu-me uma boa notícia: o Rego ia lançar a História da República. Cinco volumes. Duas mil páginas. A obra mais completa que até hoje se escreveu em Portugal sobre a República. Mário Soares, autor do prefácio, considera-a a “obra da vida” de Raul Rego.

     No dia histórico de 5 de Outubro que se celebra a República, lembrei-me do saudoso Raul Rego. Lembrei-me da sua eterna boina, do seu forte tropismo pelos alfarrabistas e, sobretudo, do grande jornalista e democrata que ele foi.

     E, de novo, fui reler a sua obra.

 

                                               *****      

 

     As revoluções acontecem sempre que as circunstâncias históricas o determinam, e quando a gota de água extravasa do copo.

     Nos inícios do século XX um imobilismo total – leia-se fatalismo -  pesava sobre Porugal. A Nação portuguesa dividia-se em duas partes, em duas grandes classes: a dos que sabiam ler e ocupavam cargos públicos ou exerciam profissões liberais, e que constituíam uma esmagadora minoria; e a grande massa de analfabetos que trabalhava nos campos e em ofícios vários.

     Portugal era um país em crise.

     Dizia-se que a nação era monárquica porque, todos os dias, fosse nas igrejas ou nas casas portuguesas, se rezava pelo rei. Mas a realidade é que a monarquia já deixara de ser modelo do regime -   indiscutido e indiscutível – para se transformar num alvo de contestação.

     As diferenças sociais eram brutais e injustas.

     O País era analfabeto.

     Os cofres do Estado estavam vazios.

     Em 1891 a situação era tal que, no Parlamento, o deputado José Bento Ferreira de Almeida propôs a venda de Moçambique como forma de tapar os buracos do Tesouro. Em Timor, o Governador Lopes de Lima já abandonara a ilha dos Amores e vendera uma boa parte do território à Holanda por duzentos mil florins. Aliás, nas nossas colónias de África, iam-se desenhando mapas com outras bandeiras que não a portuguesa. Em 1898, o acordo franco-alemão – felizmente nunca consumado – postulava a partilha das nossas colónias entre esses dois países.

     Portugal era, nesses tempos – como décadas depois diria Salgueiro Maia – o Estado… do estado ao que isto chegou.

 

                                                 *****        

 

     Vejamos, muito rapidamente, como era o nosso País nos inícios do Século XX.

     Em 1911 havia em Portugal cinco milhões e meio de habitantes, dos quais 430 mil em Lisboa e 109 mil no Porto.

     Em 1900 as crianças em idade escolar eram cerca de um milhão. Mas oitocentas mil não iam à escola. Analfabetos eram também 80%. E,  universidades, só a de Coimbra.

     Portugal era um país quase exclusivamente agrícola: 3 milhões de homens e mulheres, dos quais só metade trabalhava a terra. Os restantes viviam dos rendimentos.

     Um pequeno ou médio lavrador não tinha posses para ter um filho no liceu. Por isso muitos iam para padres: era mais barato e tinham o futuro garantido.

     A industrialização era incipiente, em contraste com o surto de desenvolvimento que brotava na Europa. Apenas 100 mil trabalhadores laboravam nas poucas fábricas que então havia.

     As exportações resumiam-se ao azeite, azeitonas de conserva, vinhos do Porto e da Madeira, e à cortiça.

     Começavam a nascer algumas fábricas. De papel, como em Torres Novas e Tomar. De vidro, na Marinha Grande. De cerâmica em Sacavém. De conservas de peixe no Algarve. Ou de fiação e tecelagem. O grande nome desses tempos originais da indústria portuguesa foi Alfredo da Silva, fundador da CUF – Companhia União Fabril – falecido em 1942.

 

     Em contraponto, contraste e confronto com a pobre e triste realidade do País, nas artes, nas letras e nas ciências abundavam ilustres personalidades cujos nomes baptizaram a maioria das ruas, das avenidas e das praças de Portugal.

     Na literatura e na poesia brilhavam Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Jaime Cortesão.

     Na pintura destacavam-se, entre outros, Rafael Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Jorge Barradas e o próprio rei D. Carlos I, um excelente pintor.

     Na arquitectura sobressaía o nome de Raul Lino que, entre muitos outros, criou o projecto do Solar dos Patudos, em Alpiarça, a casa onde viveu José Relvas, o arauto da proclamação da República. Ou o de Ventura Terra, o autor do que é hoje o Parlamento, o Palácio de S. Bento.

     Outro domínio de relevo foi o território das ciências médicas, protagonizado por um escol de médicos e investigadores de nível mundial como Sousa Martins, Câmara Pestana, Magalhães Lemos, Ricardo Jorge ou Bissaia Barreto. E, se não me levam a mal que puxe a brasa à minha sardinha, aqui deixo o brilho de três grandes mestres da psiquiatria e da neurologia: Júlio de Matos, Egas Moniz – o nosso primeiro Nobel – e Miguel Bombarda. Deste último, obreiro da revolução, voltaremos a falar mais adiante.

                                     

                                             *****

 

     Como é regra de ouro nas ditaduras, em 1907 e nos tempos de João Franco, a liberdade de imprensa era um bem escasso. A edição da maioria dos jornais diários – e não eram poucos – estava proibida.

     Em tempos em que não havia rádio, nem televisão, a imprensa era o principal instrumento de informação e de circulação de ideias. E, por isso, um inimigo a abater.

     Só em Lisboa estavam proibidos os seguintes jornais: Correio da Noite (Partido Progressista), o Popular (Partido Regenerador), O Dia (de dissidentes progressistas), Jornal do Comércio (conservador), A Época, O Liberal, A República, O País, A Vanguarda e O Mundo. Ou seja, dez no total.

     Foi de todo este caldo de cultura que a Revolução se alimentou, cresceu e explodiu: um Movimento de Patriotas, de várias cores políticas, uns civis, outros militares, entendeu e decidiu que já chegava de monarquia e que era urgente e decisivo conquistar o poder. E conquistá-lo com recurso às armas, porque não havia outro meio de lá chegar.

 

     Tal como o Movimento dos Capitães de Abril, também o Movimento Revolucionário Republicano teve uma gestação conturbada e um parto difícil.

    

     Em 2 de Outubro – três dias antes da proclamação da República – doze mil operários corticeiros entraram em greve protestando contra a importação de cortiça espanhola. E paralisaram também a circulação dos comboios.

     Nesse mesmo dia chegava a Lisboa o Presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, com um extenso programa oficial para os dias seguintes. Nem o Marechal sabia onde estava metido…

     Do outro lado, os preparativos da revolta avançavam em sigilo.

     O Otelo Saraiva de Carvalho do 5 de Outubro foi o Almirante Cândido dos Reis. Com um pequeno grupo de oficiais planeou as operações e os contactos militares. Miguel Bombarda garantia a ligação com os civis.

     Em 3 de Outubro- sem Miguel Bombarda – e já iremos ver porquê – realizou-se uma reunião magna na Rua da Esperança, na qual participaram, entre muitos outros, Cândido dos Reis, Afonso Costa, João Chagas, António José de Almeida, Brito Camacho e José Relvas, o homem de Alpiarça que proclamou a República na manhã de 5 de Outubro. Mas, no interior do Movimento, as coisas estavam longe de ser pacíficas. Raul Rego subinhou esta conflitual e contraditória situação ao deixar escrito que “enquanto alguns dos mais radicais eram pela evolução, muitos dos conservadores eram pela revolução”.

 

     Entretanto, quis o Destino – ou alguém por ele – que dois dos mais importantes protagonistas e responsáveis pela revolução não chegassem vivos à manhã libertadora do 5 de Outubro.

  

    O doutor Miguel Bombarda era o director do Hospital de Rilhafoles, hospital psiquiátrico que hoje tem o seu nome, e onde eu trabalhei até que o 25 de Abril me levou para a Assembleia Constituinte.

     Às onze da manhã do dia 3 de Outubro, estava o dr. Bombarda no seu gabinete de trabalho, quando entrou um seu doente, um tenente de 32 anos que ele tratara durante dois meses. Mandou sair o empregado e dirigiu-se ao visitante para o cumprimentar: “Então como está o meu caro tenente? Como tem passado?” O tenente não lhe apertou a mão. Em vez disso desfechou-lhe um tiro no peito, que lhe atingiu o coração. E, mais dois, no abdómen. Gravemente ferido, mesmo assim Miguel Bombarda pediu que lhe tirassem da carteira um papel que fez questão de ver queimar à sua frente. Esse papel continha, nem mais nem menos, que o plano geral da Revolução, com a distribuição dos vários grupos de revoltosos. Documento igual já Bombarda tinha antes entregue a Simões Raposo, o que não prejudicou a operação.

     A notícia da morte de Miguel Bombarda correu célere por Lisboa. Registaram-se tumultos em diversos pontos da cidade e a ira popular, em muitos casos, voltou-se contra os jesuítas.

 

     O Almirante Cândido dos Reis era o chefe da revolução. Depois da reunião da Rua da Esperança – que já atrás referi – seguiu para o Directório. E, para o que desse e viesse, meteu no bolso uma pistola automática de calibre 6.35 e um revólver. Dali seguiu para a Rua da Estefânia, para se fardar. E, finalmente, para um navio de nome “Dinorah” onde já se encontravam outros revolucionários: o capitão de fragata Fontes Pereira de Melo, o tenente Carvalho Araújo e outros oficiais.  

     Era aí o centro das operações.

 

                                            *****

 

     Ao mesmo tempo, no Palácio de Belém, o rei D. Manuel II oferecia um banquete em honra do Presidente do Brasil. Antes de jantar o chefe do Governo, Teixeira de Sousa, deu conta das suas suspeitas de que a revolução estava a eclodir, a chefes militares, ao Infante D. Afonso e ao próprio rei. O comandante da Guarda Municipal foi o único dos presentes que abandonou o local sem assistir ao banquete. Teixeira de Sousa foi impedido pelo rei de também deixar o palácio, com o argumento de que isso criaria alarme. Às onze da noite, terminado o jantar, o rei dirigiu-se para o Palácio das Necessidades, onde ficou a jogar bridge até que o jogo foi interrompido por tiros de canhão. A revolução começava e os navios davam sinal.

   Do outro lado da barricada – e como foi referido – Cândido dos Reis encontrava-se a bordo do “Dinorah” aguardando notícias sobre o evoluir das operações.

     E foi então que, em pânico, irrompeu pela sala um dos conspiradores, o segundo-tenente Aragão de Melo, também co-autor dos planos da revolta, a gritar:

     “Está tudo perdido! Os sinais estão trocados! Infantaria 16 saíu para a rua e está a fuzilar o povo que foi assaltar o quartel! Está tudo perdido!”

     Cândido dos Reis acreditou convictamente nesta informação. Não se ouviam tiros. E os navios de guerra não davam sinais de si. Deslocou-se ainda ao Quartel-General de S.Paulo, mas já estava abandonado. Como nos relata Raul Rego, o Almirante era um ”homem ensimesmado, com profundas depressões e decisões inabaláveis, o sentido da honra jogando com a própria vida”.

     Foi este homem que, deprimido e julgando-se derrotado, se dirigiu a casa de uma irmã, em Arroios, cerca das duas da manhã. E aí, lentamente, se foi envenenando, se foi suicidando.

   E assim desapareceu – a escassas horas da Proclamação da República – o chefe da revolução!

     Os funerais de Miguel Bombarda e Cândido dos Reis realizaram-se, em conjunto, em 16 de Outubro, já depois da República ter sido proclamada. Nunca se tinha visto tanta gente nas ruas de Lisboa!

Da Câmara Municipal ao cemitério do Alto de S. João o cortejo levou seis horas e meia!

     Já no cemitério, António José de Almeida deixou estas palavras     

(palavras que também poderiam ter sido ditas por Salgueiro Maia) :

    “O momento da luta passou. Que os vencedores se conduzam magnanimamente, fazendo-nos esquecer que houve vencidos. Mas que estes procedam também de forma que os vencedores não se vejam obrigados a mostrar que foram eles quem triunfou”.

 

                                               *****  

 

     Regressemos de novo às vésperas da revolução para irmos ao encontro de José Relvas.

     Ido de comboio para Lisboa três dias antes, o nosso homem de Alpiarça esperava calmamente no Café Martinho, como ele próprio nos conta nas suas memórias: “Demonstrando perfeita tranquilidade esperávamos no terraço do café, com a ansiedade que pode imaginar-se, o momento de partir.”

 

     Mas partir para onde?

     Partir para a Praça do Município onde, da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, José Relvas proclamou a implantação da República e anunciou os nomes do governo provisório:

 

                Presidente – Teófilo Braga

                Interior – António José de Almeida

                Justiça – Afonso Costa

                Finanças – Basílio Teles

                Guerra – Coronel Correia Barreto

                Marinha – Comandante Azevedo Gomes

                Obras Públicas – António Luis Gomes

                Estrangeiros – Bernardino Machado  

 

     Miguel Bombarda, caso não tivesse sido assassinado, teria sido o Ministro dos Negócios Estrangeiros. E José Relvas – o homem do nosso Ribatejo – acabou por ser o Ministro das Finanças.

     No distrito de Santarém – e segundo Raul Rego – as proclamações da República na própria tarde de 5 de Outubro tiveram especial expressão na Chamusca, em Muge, em Benavente e em Salvaterra de Magos ( na margem sul do Tejo) e também em Vila Franca.

 

     Raul Rego, o meu saudoso amigo e companheiro dos almoços constituintes da Varina da Madragoa, assim deixou escrito na sua História da República:

 

-         “O que espanta na mudança de regime, quase sem revolta, é a falta de valentia dos homens que encarnavam o Estado, a começar pelo rei. Ninguém os defendeu. Nem eles se lançaram na luta!”

 

     Também em Abril de 1974 – e felizmente – aconteceu o mesmo: a falta de comparência de forças militares que fizessem frente à coluna de Salgueiro Maia.

     O rei D. Manuel II fugiu de barco para o exílio.

     Américo Tomás e Marcelo Caetano foram de avião.

     E nós estamos aqui, continuando à espera que os ideais se cumpram.

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