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Crónica de maldizer: A do Coelho

Eurico Consciencia 

Por: Eurico H. Consciência

“Uma fábula, no dizer do Houaiss, que sabe tanto como o povo, porque sabe tudo, no dizer do António, uma fábula é uma narração popular de factos puramente imaginados. E as do Esopo, do Fedro, do La Fontaine e do nosso Curvo Semedo metem todas animais e despertam ou propõem regras morais.

Coisa sedutora para escrevinhadores como eu: fabular. Coisa mais do que sedutora: coisa fabulosa.

Vamos à primeira fábula: a do Coelho.

Suponham que este escriba mora numa quinta e imaginem que nessa quinta existem coelhos. Como já começámos a imaginar e já temos animais, só falta fabular.

Tornemos então aos coelhos. Aprende-se nas Novas Oportunidades que há coelhos bravos e coelhos mansos. Mas só vou falar dos bravos, porque dos mansos não reza a história, e, não rezando deles a história, não deverão entrar nesta estória, porque os mansos passam o tempo em gaiolas, a comerem e a fazerem o resto – bem depressa, ao que consta. Bom programa de vida se tivessem liberdade, que sem liberdade não há vida decente.

Vida decente, vida regalada, vida de lordes levam os coelhos bravos na minha quinta. Correm, saltam, comem quando lhes apetece e o que lhes agrada, andam por onde na gana lhes dá e também fazem o resto. Tanto que eles vão aumentando rapidamente. De início só lembro dois, que deveriam ser coelho e coelha e costumavam e costumam saltar-me ao caminho, encandeados pelos faróis do automóvel, quando vou trabalhar. Por vezes obrigam-me a travar bruscamente, para os não matar. E quando não tenho pressa fico a mirá-los, e desvio-me sempre quando, como malucas, se me metem à frente.

Já viram: coisa fabulosa, mundo fabuloso!

Mas há dias disse-me o hortelão: O Sr. não quer que se matem os coelhos, mas não pode ser, porque eles dão cabo das hortas. Temos que dar-lhes cabo da raça.

- Fique claro que mato quem se atrever a matar os meus coelhos.

(Não foi bem assim que lhe respondi, mas praz-me narrar assim, porque um dito destes faz-me sentir um daqueles suseranos de trezentos e quatrocentos que até gozavam de  droit de cuissade (e gozavam mesmo) e que entre nós tiveram o azar de ter surgido aquele D. João II que era adversário convicto da regionalização. Mais do que o Prof. Marcelo).

- Atão depois não se queixe se as hortas não derem para a despesa, por causa dos coelhos. Que estão gordos como abades…

Olhei para ele, quase irritado:

- Oh homem, quem é obrigado a sustentar certos Coelhos que andam por aí e que devoram num dia o que estes não comem em duzentos anos, baratos acha os custos das hortas que estes comerem…”

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Publicado por on Out 23 2009. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

1 Comment for “Crónica de maldizer: A do Coelho”

  1. … e quando se constou aquela tribo podia lavar os pés à borla, os chefes das várias tribos vestiram as vestes de guerra para se juntarem aos pombos-correios que aqui começaram a chegar, ávidos de noticias de quem era o chefe mais hábil.

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