
Por: José Niza
A comunicação que o Presidente da República fez à imprensa é um “case study”. Um caso em que os media, na tentativa de o analisar e explicar, cometeram o erro de ouvir apenas “politólogos” quando deviam ter começado por ouvir psiquiatras. Um erro em que – à excepção das abencerragens Pacheco Pereira e Graça Moura – todos os analistas políticos, embora arrasando a intervenção presidencial, procuraram encontrar explicações lógicas e políticas para fenómenos de natureza psíquica e comportamental. Confundiram alhos com bogalhos.
A primeira ilação a extrair do comportamnto e do estilo da actuação presidencial é a de que Cavaco é o porta-voz do Presidente. Se bem repararem, quando Cavaco se refere ao PR é como se fosse a outra pessoa, sempre de hierarquia superior: Cavaco não diz “vou vetar o Estatuto dos Açores”, mas informa: “O Presidente vai vetar…” Cavaco não diz “vou convocar o Conselho de Estado”, mas avisa: “O Presidente da República vai convocar…” Etc.
Esta relação dúplice e equívoca entre Cavaco Silva e o PR explica muito da forma como funciona a Presidência da República.
A segunda constatação – esta mais preocupante – é a de que toda a actuação presidencial mais recente revela a convicção inabalável de que o Presidente se sente vítima da perseguição do Governo (e obviamente do Primeiro Ministro e do PS), através das mais diversas formas, desde as escutas (que nunca existiram), a espionagens informáticas ou a sinais difusos de vigilância (que também não existem), tudo isso sem qualquer prova provada.
Este tipo de desenvolvimentos processa-se da seguinte forma: o meu vizinho está convencido de que a mulher dele o quer matar. Tem a inabalável convicção de que existe um plano e faz disso um juízo dogmático e definitivo:”É evidente que ela me quer matar! “ Se a vê na casa de banho a arrumar um frasco, logo conclui: “Lá está ela a guardar o veneno”. Se a surpreende ao telefone, deduz: “Lá estão eles a combinar o plano”. Se ela vai buscar uma faca para cortar um frango, confirma: “Lá está ela a preparar-se para me esfaquear”. E assim por diante.
Se eu tentar convencer o meu vizinho de que tudo isso são invenções sem fundamento, não consigo nada. É que as ideias dele são resistentes a qualquer contra-argumentação lógica. A impenetrabilidade é total. Ele está convencido de que existe um plano. E seja o que for que aconteça à sua volta só confirma essa suspeita.
E por isso eu acredito na autenticidade sincera da comunicação presidencial: Cavaco diz-nos o que julga que o Presidente pensa.
Quando Cavaco Silva afirma que “destacadas personalidades do partido do Governo” exigiram ao Presidente que interrompesse as férias e viesse comentar a participação de membros da sua Casa Civil no programa eleitoral do PSD, Cavaco está a dizer-nos que o pensamento do Presidente se recusou a aceitar que os deputados que acusa souberam da ajuda de assessores seus ao PSD, não porque andassem a espiá-los, mas através de um jornal e até de um site do próprio PSD! Mas, mesmo assim, o Presidente está convicto de que a tal vigilância aconteceu. Porquê? Porque ele “sabe”!
Quando Cavaco insinua que “alguém do exterior tinha entrado no seu computador e conhecido os e-mails do Presidente”, sem que, ao longo de meses, se tenha preocupado em mandar vistoriar o sistema informático, é porque está totalmente convicto de que está a ser escutado e vigiado e que não vale a pena tomar providências. Não há argumentos lógicos que o convençam do contrário. Tal como o meu inventado vizinho, ele está completamente convicto de que está a ser vigiado, espiado, perseguido. A convicção é tão forte que não aceita provas.
De tudo isto – e apesar de tudo- o mal menor é o que Cavaco diz. Porque, o que é verdadeiramente preocupante, é se Cavaco Silva sabe o que se passa na cabeça do Presidente da República.
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