O meu amigo Raul

em Opinião

raul solnadoFrágil como um passarinho o coração do meu amigo deixou de bater. Parou de vez. Já o tinha avisado há muitos anos, estava o Raul na Venezuela. E ele brincava com isso: “Tive um enfarte do Caracas”!

O Raul é daquelas pessoas que não deviam morrer. Pelo menos enquanto os seus amigos fossem vivos. Mas as coisas são como são. E esta insuportável certeza do “nunca mais” dói muito, bate forte. Ontem, no cemitério dos Olivais, fui despedir-me dele. Mas será que me despedi?

Conhecemo-nos em 1969, no “seu” Teatro Villaret, um dos grandes sonhos que ele transformou em realidade, tal como a Casa do Artista. Fui assistir à gravação de um dos primeiros ZIP ZIP. Foi também nessa tarde que conheci o Carlos Cruz e o Fialho Gouveia. Dias depois parti para Angola, para a guerra colonial. Não a guerra de 1908, com a qual o Raul brincava, mas uma guerra a sério nas matas do Norte de Angola. E foi lá que fui “ouvindo” os sucessivos ZIPs, que a minha mulher ia gravando em cassetes de som que todas as semanas me enviava.

Nestes últimos dias as rádios, as televisões e os jornais muito falaram da fabulosa carreira do Raul. O povo português – sobretudo o povo de Lisboa – tal como à Amália, tinha-o no coração. Era como se fosse um santinho malandreco e bem disposto que contava histórias e fazia a felicidade das pessoas.

Também eu o trago no coração. E guardado na memória das coisas que vivemos e fizemos juntos, um mosaico de fragmentos de convívio e amizade que agora me apetece recordar.

O ZIP ZIP, pela inovação que trouxe e pelo contexto histórico e político em que foi feito foi – para mim – o melhor e mais importante programa da história da RTP. Mas A Visita da Cornélia, a telenovela Gabriela (ambos de 1977) e O Tal Canal (Herman José – 1983), todos da minha responsabilidade enquanto director de programas, não lhe ficaram atrás. ( Perdoem-me a imodéstia, mas é isso mesmo que reza a já longa história da RTP).

Quando em 1977 fui nomeado para esse cargo já existia a ideia de um concurso concebido pelo Raul e pelo Fialho. Não perdi tempo e combinei uma reunião em casa dele para se decidir o que se ia fazer, como e com quem. Começámos depois de jantar. E às seis da manhã do dia seguinte A Visita da Cornélia estava pronta. Nessa longa noite resolvemos tudo: realização, produção, cenografia, direcção musical, júri, etc. De Maio a Novembro desse ano, às 2ªs feiras, Portugal parava para ver a Cornélia, o Raul, os seus inesquecíveis concorrentes (Fernando Assis Pacheco, Pitum Keil do Amaral, Tózé Martinho e a “Tareca” – sua mãe -, José Fanha, Gonçalo Lucena, os heróis).

Pouco tempo depois – já eu tinha deixado a RTP – o Raul estava a preparar um programa “à brasileira”, no estilo do Fantástico, que veio a chamar-se Risoflé, Risoflá. Para escrever os textos convidou-me a mim, ao Fialho Gouveia, e ao António Rolo Duarte. O que nós nos divertimos naqueles serões em casa dele! Logo no primeiro programa – coisa rara – cantou o Zeca Afonso! Recordo-me de ter composto a música do genérico e de ter criado a figura de um velhadas meio-surdo, que confundia tudo e que o Raul genialmente interpretou.

Outro enorme sucesso dele – já em 1986 – foi o concurso Faz de Conta. Um dia telefonou-me com uma ideia maluca: – nem mais, nem menos, fazer um quarteto de jazz só com políticos! Todos alinhámos e lá estivemos em cima do palco do Europa a tocar jazz sob a batuta do Thilo Krassman: o Vasco Vieira de Almeida (piano) e o Daniel Proença de Carvalho (baixo eléctrico), ambos ex-ministros; o Francisco Pinto Balsemão (bateria) e ex-primeiro ministro; e eu (guitarra eléctrica), modesto deputado da Nação. Esta louca ideia do Raul foi um acontecimento nacional: toda a gente queria saber se éramos melhores a tocar ou a governar!

Pouco tempo depois, de novo o Raul. Ele e a Leonor Xavier, sua biógrafa e companheira, tinham visto um casario em ruínas na aldeia de Vila Nova do Coito (Almoster), queriam comprá-lo e queriam saber se eu conhecia o dono. Lá me arranjei. E para o domingo seguinte ficou apalavrada a reunião com o proprietário. Consegui amortecer os ímpetos do vendedor e fez-se um bom negócio. E os trocadilhos que o Raul fazia com a casa e o nome da aldeia!!! Uns meses mais tarde fui ver a moradia – aliás muito bem recuperada pelo arquitecto Guedes de Amorim – e o Raul foi-me mostrar a piscina. Era redonda, completamente redonda. Comecei a olhar pr’àquilo e pareceu-me que havia qualquer coisa errada. E perguntei-lhe: “Como é que entras prá piscina?” – “De mergulho”, respondeu. “E como é que sais?” – “Como é que saio? Como é que saio? É pá, isto parece um poço! Não há escada! E faltam os degraus!”

Há uns dois anos li uma entrevista dele. Ao contrário do habitual era uma entrevista indignada e amargurada, de alguém que se sentia ferido. Telefonei-lhe: “Raul, o que é que se passa com a RTP?” O director de programas, Nuno Santos (hoje na SIC) tinha-lhe aprovado um programa. Mas, ao longo de dois anos, não teve sequer um minuto para falar com ele. E, finalmente, cancelou o projecto. O Raul ficou muito perturbado, não por causa do programa – tinha feito tantos! – mas pela forma como fora tratado. De raiva, escrevi uma carta muito violenta ao presidente da RTP e meu amigo, Almerindo Marques, na qual, entre outras coisas, lhe dizia que “sem o Raul a RTP não teria sido a televisão que então comemorava meio século de existência”. Dizia-lhe também que “infelizmente os directores de programas de hoje estão mais obcecados com as audiências do que com a qualidade dos programas… e tratam as pessoas com a inculta e insolente pesporrência que os seus altos estatutos e melhores ordenados lhes conferem”. E acrescentava: “Penso que a RTP deveria apresentar desculpas públicas ao Raul. É o mínimo que pode fazer. Não é o Raul que precisa da RTP. A RTP é que precisa dele e lhe deve muito.”

Infelizmente tudo ficou na mesma. Não se fez o programa, e o Raul continuou triste e perturbado. Tempos depois teve um novo enfarte.

Não! Esta não é a televisão que o Raul ajudou a fazer.

E, muito menos, a minha.


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